A LÍNGUA MAIS VAGA DO MUNDO

É provável que o japonês seja a língua mais vaga do mundo. Por exemplo, não há masculino nem feminino, singular nem plural, nem conjugações e muito menos as numerosas onomatopéias; ao contrário, há uma quantidade inacreditável de homônimos (em japonês, “goshin” pode significar “autodefesa”, “erro de diagnóstico” ou “erro judiciário”). Este fato causou um impacto enorme na cultura e na mentalidade japonesas, particularmente no âmbito das artes marciais.

Zen e língua japonesa

O Zen nasceu na Índia e passou pela China antes de chegar ao Japão. Mas em nenhum outro lugar encontrou terra tão fértil para se desenvolver. E creio que isso se deva em grande parte à língua japonesa que, pela sua “imprecisão”, obriga àquele que a utiliza a “sentir” tudo o que há por trás da comunicação não-verbal.
Esta é uma tarefa muito difícil, tendo em vista que este tipo de comunicação não se baseia na lógica. A língua japonesa é cheia de não-ditos e de subentendidos, e nenhum país os desenvolveu tanto quanto o Japão.
Tenho uma amiga coreana muito brilhante, que pesquisa história das religiões. Ela possui um QI de 156 e domina várias línguas. Após um ano no Japão, ela falava e escrevia perfeitamente, até melhor do que eu. Apesar do domínio técnico da língua japonesa, ela teve muita dificuldade em compreender a linguagem não-verbal.
No Japão não se pode nunca desviar o olhar de seu interlocutor. Sendo assim, é, por exemplo, muito raro, à ocasião de uma negociação, dar-se uma resposta pela metade. Mas nas dezenas de modos de dizer talvez, dois japoneses lerão um sim, um não ou qualquer uma das variantes intermediárias de maneira tão clara como se as palavras tivessem sido realmente pronunciadas. E isto vale também para a expressão dos sentimentos...
Este fato é corrente, aliás, na literatura: o que os haicais japoneses têm de sucinto e sugestivo, os poemas ocidentais têm de longo e descritivo.
Diz-se que compreender a língua de um país é o mesmo que compreender a alma de seu povo. No caso da língua japonesa, acho que isso permite apenas uma compreensão limitada.

Zen e os caminhos marciais

O zen, que se tornou um dos pilares da formação dos samurais, influenciou sua maneira de apreender o mundo e de viver. E foi muito naturalmente que deixou sua marca nas práticas marciais, tanto no nível da técnica quanto no da transmissão.
Uma das expressões mais importantes que se referem à transmissão dos caminhos japoneses é: “I shin den shin”. Esta expressão retirada do zen traduz-se aproximadamente por “ de alma para alma”, ou “de coração para coração”. Ela é a ilustração perfeita do ensinamento não-verbal, que é a essência da transmissão do conjunto dos “do”, seja no zen, no chado, shodo, budo, etc...
Comparativamente à língua japonesa, a língua chinesa é muito mais precisa. Assim, na prática das artes marciais chinesas, as etapas são muito mais claras e as sensações buscadas a partir dos exercícios são geralmente explícitas. Graças a isto, é mais fácil progredir nas primeiras etapas do estudo. E, nesse sentido, não é falso dizer que, com relação à sua transmissão, as práticas marciais japonesas são mais elitistas.
No entanto, o aprendizado “I shin den shin” permite aumentar a intuição e a sensibilidade, qualidades maiores nas práticas marciais, que os grandes adeptos do passado haviam desenvolvido a um nível fenomenal.

 

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I shin den shin



Os escritos e as artes marciais

Isso não significa, no entanto, que a cultura japonesa não dê lugar à linguagem escrita. Foi no Japão onde se escreveu o primeiro romance e é também no Japão onde existe o maior número de documentos escritos relativos às artes marciais, makimono, densho etc.
Mas esses documentos ou eram memorialistas ou eram certificados de transmissão. Eles de nada serviam para que se transmitisse a essência de uma escola. Os ryus (estilos) eram tradições marciais. Numa época em que a técnica podia fazer a diferença entre a vida e a morte, o saber que eles transmitiam era um verdadeiro segredo militar. Os ensinamentos de uma escola eram então codificados, de maneira que era impossível para alguém, que não tivesse sido iniciado nos seus segredos, descobrir seu verdadeiro sentido.

Uma transmissão sem intuição?

Nos dias de hoje, o Japão está fortemente ocidentalizado e a transmissão “I shin den shin” não é mais regra absoluta. Numerosos experts em artes marciais japonesas atualmente dão explicações detalhadas e ensinam “à ocidental”. Morihei Ueshiba e os uchi deshi que estiveram próximos dele serão, certamente, os últimos adeptos a terem ensinado e estudado assim.
Os budôs modernos estão, aliás, mudando sua própria história: é provável que no futuro o ensinamento e a pedagogia estejam baseadas cada vez menos na intuição. Prever as conseqüências disto infelizmente é impossível; mas pode-se imaginar que isso se dará em prejuízo da eficácia que era própria dos samurais, uma vez que a intuição que desenvolviam no seu modo de treinar e de transmitir é um elemento vital numa prática autenticamente marcial.


Box – minibio Léo Tamaki

Léo Tamaki pratica artes marciais há mais de 25 anos. Após ter passado, entre outras, pelo judô, kung-fu e karatê iniciou-se no aikidô, arte que ele ensina hoje em dia. Morou muitos anos no Japão, onde passa vários meses por ano, durante os quais segue especialmente os ensinamentos do mestre Kuroda.

Fontes: http://www.tsubakijournal.com and http://www.leotamaki.com

 

Tradução- Marcelo Gomes