Reminiscências de Morihiro Saito

3° parte

 

 Mudando-se para o Japão

 

Eu estava na época dirigindo um Dojo e esforçando-me para ganhar a vida ensinando Aikido em Monterey, porém era difícil conseguir sucesso financeiro ensinando Aikido em uma pequena cidade, ainda mais sendo ele não muito bem conhecido. Em 1976 tomei a decisão de mudar-me para o Japão tão breve quanto possível. Na verdade deixei os Estados Unidos em Agosto de 1977 e a princípio fiquei no Iwama Dojo.  Gostaria de dizer algumas palavras sobre como decidi estudar com Saito Sensei em Iwama, ao invés de viver e treinar em Tókio ou em outra parte do Japão. Se todos os fatores fossem iguais, eu certamente não teria escolhido ficar no interior da prefeitura de Ibaragi. A comida, o tipo de vida, e mentalidade eram totalmente estranhos à vida que eu estava acostumado na Califórnia. De fato, há realmente pouco mais para um estrangeiro fazer em Iwama além de praticar Aikido. Além disso, eu sabia que não desejar tornar-me um UchiDeshi também. Passando 3 anos no exército havia curado-me do desejo de colocar-me novamente em uma semelhante situação. Acabei passando aproximadamente 6 semanas morando no Iwama Dojo logo depois de minha chegada contudo, sabia que a situação era temporária assim senti pouca pressão psicológica em estar lá. 

 

A principal razão de escolher Iwama foi a irresistível atração exercida pelo Aikido do Sensei. O Homem era um talentoso professor e um mago técnico. Cada classe que ensinava era organizada ao redor de temas de fácil compreensão. Seus movimentos eram muito precisos  e suas explicações lógicas. Ele também freqüentemente mencionava seu professor Morihei Ueshiba e oferecia uma lista interminável de ”Kuden” de O-Sensei para lembrarmos dos pontos técnicos chave. Lembre do fato que este era o Dojo particular do fundador. Um grande número de pertences pessoais do fundador podiam ainda ser encontrados em sua casa, que estava fisicamente ligada ao Dojo. Havia também o sereno templo Aiki situado bem próximo,  do  qual  Saito  Sensei era o guardião. Classes de Aiki Ken e Jo ocorriam em frente do templo quase todo dia. 

Havia outros excelentes professores com os quais eu havia treinado ou tido a oportunidade de ter visto, porém acredito que o método do Sensei era o mais adequado para meu modo metódico de olhar as coisas,e eu tinha uma forte intuição que a prática do Aiki Ken e Jo adicionariam uma importante dimensão para meu Aikido.

 

 Treinando em Iwama depois de 1970 

 

Como eu logo tinha conseguido um trabalho ensinando Inglês perto de Mito, mudei-me do Iwama Dojo para um pequeno apartamento em Tsuchiura. Conseguia treinar no Dojo aproximadamente 4-5 dias por  semana.    Naqueles    dias, o Sensei sempre ensinava as classes de armas pela manhã em frente do templo Aiki e a maioria das classes noturnas no Dojo. Até quando eu assistia suas classes, várias vezes por semana, recordo maravilhado como eram lógicas e organizadas as suas explicações das técnicas. Sua habilidade em organizar o rico currículo do Aikido em segmentos de fácil compreensão era total. 

 

Eu freqüentemente dizia ao Sensei que se ele quando criança não tivesse permanecido em um vilarejo pecuário pobre da zona rural do Japão, porém nascido em uma família de classe média na cidade grande, ele certamente teria se tornado um “Hakase”, um Ph.D.  Ele parecia divertir-se muito com este comentário. Mesmo que  embora  o comentário fosse feito em forma de brincadeira, eu acreditava em cada palavra.  Verdadeiramente, seu olho para os detalhes e sistematização eram estupendos. 

 

As Classes do Sensei sempre começavam com Tai no Henko e Morotetori Kokyuho, e finalizavam com Suwari Waza KokyuHo. Ele nos lembrava que O-Sensei sempre ensinava suas classes em Iwama desta forma, e que estava seguindo esta tradição. Ele expressava constantemente que seu propósito em ensinar Aikido era preservar e difundir as técnicas do fundador de uma forma não-diluida.  O Sensei freqüentemente mencionava que ele e sua esposa Sata tinham dedicado 23 anos servindo O-Sensei e sua esposa Hata, e que ele continuaria a servir o fundador e propagar suas técnicas até que ele desse seu último suspiro. E Assim ele fez. 

 

O Sensei estava consciente do criticismo que o “Iwama Aikido” recebia devido a seus fundamentos e execução por demais estática das técnicas.  Algumas vezes ele realizava progressões a partir da forma mais básica fazendo de uma-duas-três maneiras, então apresentava cada vez mais avançados modos de realizar a técnica até que finalmente chegava ao Ki no Nagare. Ele então mostraria diversos níveis diferentes de Ki no Nagare até que, no mais alto nível, havia somente uma insinuação do movimento realizado em uma velocidade espantosa. Ele podia realmente demonstrar avançados movimentos quando desejava fazê-lo. 

 

Era como se ele estivesse dizendo, “Olhe, estas pessoas criticam o Iwama Aikido sempre sem ter experimentado este diretamente. Eles dizem que tudo o que nós fazemos é básico. Eu gostaria de vê-los realizando uma técnica em todos estes diferentes níveis. Eles realmente esperam aprender técnicas eficazes quando não levam em conta os fundamentos? Eles tentam começar praticando as técnicas de  Ki no Nagare corretamente desde o início. Este é um grande erro!” Eu escutei a voz de Saito Sensei expressando tais sentimentos repetidas vezes através dos anos, tanto quando ensinando como privadamente.  Outra coisa que ele gostava de fazer era mostrar as relações entre o Taijutsu e as técnicas de armas, especialmente o Ken. As técnicas básicas tais como Shiho Nague, Kotegaeshi e Irimi Nague todas tem equivalentes usando a espada.  Do mesmo modo que os ataques de Shomen Uti, Yoko Men Uti e Tsuki são simples adaptações com as mãos-vazias de golpes básicos realizados com a espada e movimentos de estocada. 

 


Duvidando da autenticidade das técnicas de Saito Sensei

 

Saito Sensei sempre foi muito cortês comigo, certamente porque eu estava no inicio de  minha estadia em Iwama. Ele sabia que eu era um amigo de Bill Witt e evidentemente recordava que o havia entrevistado anos antes na Califórnia. Além disto, ele encorajava-me muito em minha pesquisa sobre a história do Aikido. Meu japonês então, havia melhorado um pouco e estava tendo conversas com ele com uma certa freqüência. Olhando para trás, acredito que deva ter parecido um pouco impertinente porque, embora eu fosse totalmente comprometido à seu método de Aikido, ainda sentia que ele teria provavelmente feito consideráveis mudanças nas técnicas que havia aprendido de O-Sensei. Posto que Saito Sensei continuamente repetia que estava ensinando as técnicas do modo que foi ensinado à ele pelo fundador... havia nisto um disparate que eu não podia aceitar em minha mente.

 

Todavia toscamente consegui verbalizar para o  Sensei a dicotomia que percebia entre o seu Aikido e o do O-Sensei. Expliquei a ele que as técnicas de O-Sensei preservadas em filme pareciam muito diferentes do modo que Saito Sensei ensinava as suas. O Sensei divertiu-se muito com as minhas conclusões e provavelmente com meu descaramento por diretamente expressar meus pensamentos, algo que eu tinha certeza um estudante japonês nunca teria feito.

 

O Sensei me disse que a razão para as diferenças era que O-Sensei estava ciente de ser filmado em público e intencionalmente não demonstraria as técnicas do mesmo modo que ele ensinava em Iwama. Ele ainda acrescentou que O-Sensei era como o antigo artista marcial que ocultava suas técnicas do público em geral. Ainda por muitos anos continuei sem convencer-me...

 

A Primeira foto

 

Depois de estar treinando em Iwama por aproximadamente um ano, pedi à Saito Sensei para posar para uma série de fotos técnicas para uso no Aiki News, e a publicação de um par de livros técnicos.

 

Ele concordou em fazê-lo e nós batemos aproximadamente 10 rolos de filme em Novembro de 1978. Essas fotos aparecem em algumas das primeiras publicações do informativo, e também produzimos dois pequenos manuais técnicos.

 

Um de meus objetivos em propor este projeto era reacender um interesse no Sensei em retomar a série de livros Tradicional Aikido que havia sido deixada incompleta.

 

1979 Viagem aos Estados Unidos e Canadá

 

 

Fiquei muito honrado quando Saito Sensei pediu-me para viajar ao exterior com ele, em sua primeira viagem aos Estados Unidos e Canadá, em Agosto de 1979.

 

Participamos em um dos  Summer Camp da United States Aikido Federation, promovido por Mitsunari Kanai Sensei e Yoshimitsu Yamada Sensei, com base em Boston, Massachusetts e New York City, respectivamente.

 

Saito Sensei foi bem recebido na Costa Leste em sua primeira aparição, e a maioria dos Aikidoka participando do Seminário estavam vendo seu treinamento de armas pela primeira vez.

 

Me lembro nitidamente também de nosso encontro e conversa com Nobuyoshi Tamura Sensei e Tiki Shewan Sensei da França no New York Aikikai, exatamente momentos  antes do início do Summer Camp. Uma outra memória que se destaca foi um delicioso jantar de pescados no porto de Boston,  seguindo que Saito Sensei, Yamada Sensei, Kanai Sensei, Bruce Klickstein e eu conversamos até tarde da noite sobre todo o assunto imaginável referente ao Aikido.

 

O Sensei também conduziu um seminário em Calgary, Alberta, Canadá nesta viagem. Takeji Tomita Sensei juntou-se a nós vindo da Suécia e ajudou como Uke de Saito Sensei. Nós também desfrutamos de uma viagem para Banff, um famoso e pitoresco balneário que ficava próximo.

 

Realmente desfrutei muito viajando com o Sensei e tendo todo o tempo do mundo para conversar sobre Morihei Ueshiba e suas primeiras experiências no Aikido. Ele era uma verdadeira enciclopédia de conhecimento sobre os anos pós-guerra em Iwama  e o primeiro período da Aikikai.

 

O Sensei, por sua parte, nunca parecia cansar-se destas conversações e era uma das minhas mais importantes fontes de informação sobre muitos aspectos da vida de O-Sensei.

 

 

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Aiki News

 Tradução: Rubens Caruso Jr.

2003