E Chiba sensei? De que forma sua personalidade diferencia seu Aikido?


Quando você não conhece a pessoa é difícil explicar, porque tem tudo a ver com a personalidade. O Aikido dele é obviamente bastante marcial e sua atitude é mais marcial do que a da maioria dos shihans. Ele é rígido na forma também.

 

Seu Aikido é bem expansivo, amplo e está sempre mudando... ele muda momento a momento, sempre buscando uma outra forma de fazer a mesma coisa. Ele vive a técnica ao mesmo tempo em que a executa e eu gosto disso porque Aikido é uma coisa viva e não algo que a pessoa deva simplesmente repetir, mas sim algo que vem de dentro.

 

A técnica deve ser 'a técnica naquele momento', isto é o que conta. Não o que você vai fazer depois ou o que fez antes, mas o que você faz naquele momento. É assim que devemos treinar.

 

E quanto a Tamura sensei?


Sem forma. Não há coisas como "faça isso, faça aquilo", ele só se movimenta. Ele se movimenta e você cai. Ele faz o que quer. É muito difícil para os iniciantes aprenderem com ele porque eles não vêem o que ele faz exatamente. Eu sempre digo que ele ensina alunos de nível mais avançado. Mas, seja iniciante ou avançado, é muito inspirador observar seu Aikido.

 

Qual a importância do treino de armas no Aikido?


Eu acredito que ajuda muito. Propicia um conhecimento mais profundo do que é o Aikido e de onde ele veio no que se refere ao trabalho com espada. E também ajuda a entender alguns dos princípios que utilizamos no Aikido e como isto se relaciona com o corpo. Por exemplo, distância, timing, equilíbrio, postura... todas essas coisas. Te ajuda a focalizar melhor esses conceitos e te ensina muitos pequenos detalhes que você normalmente não percebe quando simplesmente observa a técnica.

 

É possível ser um bom aikidoista sem treinar armas ou você considera isto um requisito para o desenvolvimento técnico?


Se a pessoa realmente quer deixar sua prática mais "redonda" acho que ela vai buscar algum tipo de treinamento com armas. Eu não diria que ela tem que fazer. Cada um faz com a intensidade que desejar. Você pode treinar muito ou apenas o suficiente para mostrar a seus alunos, ou para o auto-aprendizado. Você pode treinar com o intuito específico de aprender armas ou como uma ferramenta para melhorar seu treino de taijutsu.

 

A intensidade é uma questão individual. Mas eu, pessoalmente, acho que treinar com armas ajuda bastante. No meu dojo eu ensino jo e bokken.

 

E quanto ao iaido? É a mesma relação?


Sim, eu acho que o iaido pode aprimorar sua prática de Aikido também. Mas lembre-se que iaido é uma arte completamente diferente. Não está tão relacionado ao Aikido quanto à forma, porque as posturas são muito diferentes. O iaido aumenta seu foco, concentração e senso de equilíbrio, que são muito importantes para o seu Aikido.

 

 

 

No que consiste, fundamentalmente, o iaido?


É a arte de sacar a espada. Você saca, corta e a coloca de volta na bainha. No iaido você saca e corta em um só movimento contínuo, ao passo que no kenjutsu ou no kendo, que são outras formas de saque de espada, você saca primeiro, faz a técnica e depois retorna a espada à bainha. Iaido é um treinamento muito focalizado e te dá uma ótima noção de equilíbrio.

 

É bom aprender e entender os fundamentos da arte da espada, porque muitos dos princípios do Aikido vêm daí. Mas, de novo, esta é uma escolha pessoal. Iaido não vai te fazer melhor ou pior. Mas, em geral, as pessoas que praticam iaido têm uma melhor percepção do trabalho com a espada. Por causa desses ingredientes, eu acredito que o treino de iaido pode melhorar o seu treino de Aikido.

 

Todos seus uchi-deshis fazem suas aulas de iaido. É escolha deles ou requisito?


Requisito. Eu quero que eles aprendam.

 

Como você vê a evolução do seu Aikido nos últimos dez anos?


Com o tempo, idade, experiência, e maturidade seu Aikido se modifica. Ainda sou eu, mas minha atitude no tatami mudou. E talvez isto esteja mais evidente. Acho que quando eu era mais jovem, eu queria que a técnica fosse tipo 'crash; bang', você sabe... eu queria sentir e saber que aquilo funcionava. Meu Aikido era bem explosivo naquela época e acho que ainda o é hoje, mas coisas desse tipo não são mais importantes para mim. Pelo menos, não da mesma maneira. Minha mentalidade mudou mais que minha técnica. O foco no meu treino é diferente hoje em dia.

 

Você tem alguma preferência quanto a treinar como nage ou uke?


Ukemi é mais importante para mim do que fazer a técnica. Eu aprendo mais desta forma. O sentimento quando eu era jogado pra todos os lados era delicioso. Eu gostava muito daquela sensação. Eu acho que foi assim que aprendi a fazer o que faço, porque eu aprendo sentindo.

Mesmo que eu pudesse ver como algo era feito, era muito mais inspirador para mim senti-lo sendo feito. Então, a princípio, sim, eu prefiria ser uke.

 

Mas agora são as duas coisas juntas: fazer a técnica e receber. A prática é 50% de cada. Você cai e você faz a técnica. Acho que você deve prestar atenção aos dois lados, mas no início é provavelmente melhor se você prestar mais atenção ao ukemi, aprender como cair, responder, não se machucar.

 

Nos dois primeiros meses, os iniciantes devem se concentrar em suas quedas para poderem curtir o treino. É muito difícil gostar de fazer Aikido se você sempre sente que vai se machucar.

 

Tenha prazer em cair antes de querer começar a treinar com mais intensidade. Aikido exige muito empenho, mas deve também ser agradável. Portanto, quanto melhor forem as suas quedas, mais vigoroso pode ser o seu treino.

 

Algum ídolo no mundo marcial?


Não um ídolo, mas fui influenciado por artistas marciais bons que eu gostava, como Bruce Lee, é claro... Tá bom, talvez ele fosse um ídolo para mim quando eu era um garoto (risos).

 

Ah, e também pessoas como Jet Li e Jackie Chan. Fico muito impressionado com o que eles podem fazer, mas não os tenho como ídolos porque não faço o que eles fazem. Eu os vejo como inspirações, no sentido "eis o que você pode conseguir se puser seu foco mental lá".

 

Isso é o que eles me mostram como indivíduos, que eles são bons no que fazem pelo quanto se dedicaram àquilo. Eu quero ser bom no que faço e para chegar lá tenho que colocar o mesmo tipo de energia e dedicação no meu treinamento. Eles são bons modelos nesse sentido.

 

Diga um momento especial na sua carreira no Aikido.


Fazer ukemi. Fazer ukemi para o Doshu pela primeira vez. Aquela foi uma sensação especial. Era o Doshu anterior, Kisshomaru Ueshiba. Também fiz ukemi para seu filho, Moriteru Ueshiba, o atual Doshu. Ah. e todos os outros senseis para quem fiz ukemi. Cada uma dessas vezes me trazia uma sensação nova e uma ótima experiência de aprendizado.

 

 

"A entrevista foi concedida pelo sensei Donovan à nossa amiga Cris, em março de 2003, durante uma viagem de carro entre a Filadélfia e Nova York, exclusivamente para o site do Senshin Dojo.

 

A cópia e/ou reprodução deste material é permitida desde que sejam mantidos os contextos originais e dados os devidos créditos. Obrigado."

 


 

Entrevista realizada para o Site www.senshin.com.br e disponibilizada no Shinbun mantendo-se os créditos e o contexto original.

 

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