Como os shihans reagiram a esse estilo diferente de ukemi que você inconscientemente desenvolvia? Eles aceitaram logo de início?


Sim, acho que sim. Como disse antes, eu apenas fazia ukemi. Ukemi não era ensinado de nenhuma forma específica, havia apenas rolamento para a frente (mai kaiten ukemi) e rolamento para trás (ushiro kaiten ukemi), até que as pessoas vieram me pedir para ensinar o que eu fazia.

Então, mais pessoas começaram a fazer o mesmo tipo de queda. Foi assim que começou... eu só estava fazendo ukemi. E percebi que me ajudava, por causa do meu joelho ruim.

 

Não acho também que foi algo totalmente novo. Eu costumava observar outras pessoas caindo, pessoas que eu achava que tinham um bom ukemi, especialmente pessoas do Hombu Dojo que vieram aos EUA para serem ukes do Doshu (na época, Kisshomaru Ueshiba).

 

Eu via a suavidade com que eles caíam e tentava fazer a mesma coisa, apesar de fazer um pouco diferente. Mas a inspiração veio ao observá-los.

 

Você fez muito ukemi para os senseis Chiba e Yamada. Você sentia muita diferença entre um e outro?


Para mim é a mesma coisa, porque ukemi é só uma questão de responder e tentar manter o contato. Eu não pensava em quem estava me jogando, mas simplesmente me harmonizava com a pessoa à minha frente naquele momento, da melhor forma que eu podia.

 

A única diferença é a personalidade deles. Eles são pessoas diferentes, então a percepção da técnica contém a personalidade de cada um, mas quanto a ukemi, é a mesma coisa.

 

Ukemi é simplesmente responder e sentir o que eles estão fazendo, só isso. Não estou dizendo que era fácil, porque não era. Exigia muito de mim. Mas para mim fazer ukemi é a melhor forma de aprender e eu tinha muito prazer com aquilo.

 

Você e Yamada Sensei têm uma boa parcela de responsabilidade pelo que o Aikido é hoje no Brasil, considerando que ambos têm feito muitos seminários por aqui. Como você se sente em relação ao Aikido no Brasil?


Eu me sinto conectado ao Aikido brasileiro. É um privilégio ser responsável por muito do desenvolvimento de vocês. Quanto ao Aikido em geral, é muito bom. Eu me interesso e me preocupo muito com o Aikido no Brasil e gostaria de vê-lo melhor do que é hoje.

 

Ainda quero vê-lo crescer mais e mais, mas às vezes as personalidades individuais podem interferir, eu acho. Seria muito melhor se todos pudessem trabalhar juntos. Mas essa é somente a minha opinião. Faço o melhor que posso para influenciar a prática do Aikido, porque realmente me importo muito com as pessoas daí.

 

Vejo muitos de vocês como meus alunos, mesmo que indiretamente, através de seus senseis.

 

Já que falamos de alunos, há algum ingrediente específico que lhe aponte um grande potencial no aluno que inicia?


Ninguém é igual, então nunca é a mesma coisa. Pode ser atitude, a rapidez com que aprendem, a sensibilidade ao receber ukemi, pode ser qualquer coisa. Percepção é o que eu vejo neles. E é difícil explicar em palavras, porque é o indivíduo que estou olhando e todo e qualquer tipo de coisa pode me dar este feeling. Mas nove entre dez vezes posso olhar alguém e dizer "oh, esse vai ser bom" ou "esse vai ter que se esforçar bem mais".

 

Mas, às vezes, você vê a pessoa vir com dois pés esquerdos, duas mãos esquerdas, aparentemente sem nenhuma coordenação e você pensa que em seis meses ele vai desistir. E dez anos depois ele ainda está lá e melhorou muito. Às vezes isso acontece. Todo mundo é muito diferente.

 

 

 

Qual é o conceito mais difícil para os alunos entenderem?


Relaxar. Relaxar mental e fisicamente. É muito difícil conseguir realizar os movimentos com alguém te atacando, ter coordenação e se movimentar de maneira focalizada, se você não consegue relaxar. O relaxamento começa dentro de você, antes de se manifestar no corpo. Eu acho que isso é o mais difícil para os alunos aprenderem.

 

Uma das principais características de Yamada Sensei é permitir que seus alunos se desenvolvam em sua forma natural, de acordo com suas personalidades. Você também adota essa postura no seu dojo?


Eu tento fazer o que o Sensei faz. Ele ensina o Aikido básico e te dá uma base forte. A forma é consistente, é sempre a mesma coisa. Uma vez que você aprende o básico corretamente e entende melhor a forma, então Sensei diz "okay, experimente e acrescente sua personalidade ao que faz".

 

Ele não permite que você faça o que bem entender, mas ele também não te sufoca. Ele deixa que você descubra as coisas por si próprio. Se a pessoa não consegue achar seu caminho, então é preciso prestar atenção para que ela não desvie, fazendo e inventando coisas estranhas e criando hábitos ruins.

 

Mas sim, o Sensei não te força a copiar exatamente o que ele faz porque as pessoas são diferentes, têm tipos físicos e tamanho diferentes, mentalidades diferentes e portanto, algumas coisas que são fáceis para ele fazer de um jeito particular, talvez não o sejam para outra pessoa.

Mecanicamente, os movimentos são os mesmos, mas a pessoa tem que aprender a fazer a mesma coisa de maneira apropriada ao seu corpo. Então, o Sensei fica de olho para ter certeza que eles permanecem em conformidade com o que a técnica deve ser, e que não estão criando sua própria técnica.

 

Eu sou do mesmo jeito. Há certas coisas que quero ver nos meus alunos sim, então eu imponho aquilo até um certo ponto visando a qualidade do Aikido deles. Mas quanto ao que o corpo deles faz, eu os observo e encorajo a buscar seus próprios movimentos. Isto é algo que aprendi com o Sensei - permitir que eles se desenvolvam. Mas para isso você tem de lhes dar uma boa base.

 

Como você vê os estilos de Yamada e Sugano Sensei?


Sugano sensei não está tão preso à forma em si. Ele lida mais com o princípio da técnica, 'timing' e coisas assim, enquanto Yamada Sensei lida mais com a mecânica dos movimentos, fazendo com que você desenvolva bons hábitos.

 

O Aikido do Sensei é mais amplo, mais redondo, mais rígido em sua forma, porque ele quer técnicas limpas, claras. Sugano Sensei é mais livre na forma. Ele busca mais fluidez e mover sempre o corpo.

 

Ambos explicam as coisas de forma similar, mas seus corpos executam essas coisas de forma diferente. As personalidades deles e a maneira com que transformam a informação em movimento corporal é diferente. Mas, no fundo, é tudo a mesma coisa.

 

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