Entrevista com Donavan Waite
Entrevista realizada para o Site www.senshin.com.br e disponibilizada no Shinbun mantendo-se os créditos e o contexto original.
Para maiores informações sobre seminários realizados por Donavan Sensei no Brasil, visite o http://www.senshin.com.br/donovan/index.html ou visite o site oficial do Senshin Dojo disponibilizado acima e na nossa lista de links.
"A entrevista a seguir foi concedida pelo sensei Donovan à nossa amiga Cris, em março de 2003, durante uma viagem de carro entre a Filadélfia e Nova York, exclusivamente para o site do Senshin Dojo.
A cópia e/ou reprodução deste material é permitida desde que sejam mantidos os contextos originais e dados os devidos créditos. Obrigado."
Cris: O que levou você a praticar Aikido?
Sensei Donovan:
Eu gostei desde a primeira vez em que vi o Aikido. Gostei de como ele parecia
ser. Eu tinha 7 anos e praticava judô na época.
Como foram os primeiros anos de treinamento?
Eu ainda estava praticando judô, eu não parei para começar o Aikido. Então
comecei treinando 2 ou 3 vezes por semana e o resto do tempo eu fazia judô. Eu
não parei com o judô até estar com 16 anos. E quando parei o judô, comecei com
Karatê, portanto eu fiz Karatê e Aikido ao mesmo tempo por um período também.
Houve um momento em que você decidiu se dedicar ao Aikido profissionalmente ou apenas aconteceu naturalmente?
Eu sempre quis praticar Aikido em tempo integral. Mas não pensei em fazer isso
profissionalmente até vir morar nos Estados Unidos (Ele iniciou sua prática na
Inglaterra) e me tornar deshi de Yamada Sensei.
Quando foi isso ?
Eu comecei a praticar Aikido pouco antes da morte do O-Sensei. Acho que 6 ou 7
meses antes. Eu era muito novo quando comecei. Vim para cá (EUA) em 1984. Como
disse, não pensava em me profissionalizar, mas queria aprender de forma séria e
a única forma de se conseguir isso é sendo uchi deshi. Por isso vim para o NY
Aikikai.
Qual a melhor e a pior coisa quando se é uchi-deshi?
A melhor coisa obviamente é o treino. Você treina todo dia. E a pior coisa é não
ter muita privacidade, o que não importa quando você é jovem, mas com o passar
dos anos eu queria cada vez mais ter meu próprio espaço e privacidade.
Quantos deshis haviam nesta época no dojo?
No início, somente eu. Mas com o passar dos anos outros vieram.
E quanto tempo você ficou lá como uchi-deshi?
Uns 13 anos. Era só eu e então mais ou menos quatro anos depois mais dois vieram
e ficamos em três. Ficava bem movimentado no verão, como fica até hoje, mas
normalmente éramos só nós três.
Quem são os shihans que mais te inspiraram, tecnicamente falando?
Obviamente, Yamada Sensei. Houve também Chiba Sensei e Ralph Reynolds na época
em que eu morava na Inglaterra. Teve também o Tamura Sensei, no período em que
pratiquei na França; Sugano Sensei... e também todos os outros shihans que vi
durante aqueles anos no New York Aikikai. Todos eles me inspiraram a fazer
melhor.
Mesmo se não fossem diretamente meus instrutores, eram uma inspiração quanto ao que eles podiam fazer, e isso me fazia querer treinar com mais afinco, sempre melhorar. Mas, fundamentalmente, meus instrutores.
Existe muita personalidade no seu Aikido. Como lhe ocorrem essas variações nas técnicas?
Não sei. Eu simplesmente faço. São coisas que aprendi durante todos esses anos e
eu as utilizo e adapto de formas diferentes.
E foi assim desde o início?
Não sei realmente... eu só faço o que faço. Não é algo planejado, desenvolvido
conscientemente. Essas são as coisas que me foram ensinadas por todos os meus
instrutores. E eu ponho tudo junto de forma que meu corpo possa entendê-las.
Isso também faz com que eu veja outras possibilidades... eu sempre procuro
outras possibilidades.
Uma vez que você entende as formas básicas, você deveria atingir um ponto no qual você realmente faz o que quer fazer, executa as técnicas da maneira que mais lhe convém.
Somente anos de experiência lhe proporcionam esse grau de percepção. Não acho que é algo que as pessoas fazem naturalmente. Alguns fazem com facilidade, outros não.
Quando vejo algo, vejo aquilo como o que é, mas também imagino outras possibilidades envolvendo o que está sendo mostrado.
Você via dessa forma desde quando começou?
Sim, desde o início.
Você tem dois vídeos sobre ukemi onde você comenta que tinha problemas no joelho. Como você desenvolveu aquelas variações de quedas? Algo a ver com seu joelho ruim?
Não tenho a menor idéia. Eu apenas recebo a técnica e faço a queda. As pessoas
me diziam "Me mostre como você faz isso", e eu respondia "Isso o quê?
Eles me jogam e eu caio".
Eu estava apenas fazendo o que era confortável para que meu joelho não doesse. Eu não tinha intenção de criar nada. Eu aprendi sentindo o que acontecia.
Então percebi que havia sentido naquilo que eu estava fazendo e já que as pessoas me perguntavam como fazer, comecei a destrinchar as quedas para que eles pudessem compreender. Somente então tomei consciência de fato do que eu fazia.
Foi a mesma coisa quanto ao ushiro yoko ukemi, que poderíamos chamar de sua marca registrada?
Eu estava apenas me protegendo ao cair. Era mais fácil fazer daquela forma do
que cair chapado de costas e levantar. Quando fazem algo comigo, eu apenas
respondo ao que me é dado da melhor forma que eu posso.