

AIKIDO
E MULHERES
Porque tão poucas mulheres treinam Aikido?
Existe o fator cultural, que observo muito forte aqui na Serra Gaúcha: as mulheres esperam que ALGUÉM sempre vai lhes proteger dos problemas do mundo. Uma síndrome de dona de casa indefesa. Como se elas não precisassem saber se defender, como se não dirigissem à noite sozinhas, ou não tivessem que dar um chega pra lá em algum abusado. Em geral, as mulheres buscam atividades que lhes dê um corpo sarado, esquecendo que a verdadeira beleza é interna e vem da saúde não só física, mas mental. Daí ficam esses corpos malhados, e uma falta de brilho no olhar.
Falando especificamente de dojos de Aikido, e de minha experiência em outros dojos, penso que grande parte da responsabilidade é dos próprios participantes do dojo. A maioria é homem. E quando o sensei do dojo tem idéias esquisitas sobre as mulheres, as coisas ficam muito piores.
A historia é antiga.
Mary Heiny Sensei, americana que treinou no Hombu Dojo com o fundador, nos anos 60, conta que no Japão, os homens não chamavam as mulheres para treinar. Um dia, o fundador entrou no meio de um treino, fez uma longa dissertação sobre a importância e a qualidade do Aikido das mulheres, e incentivou energicamente a todos para treinarem juntos, não importa se homem ou mulher. Todos ouviram, o fundador partiu, e tudo voltou como estava antes: homens treinando com homens e mulheres com mulheres. Não sei como é atualmente, mas imagino que não seja muito diferente.
Se o instrutor do dojo tem uma mente clara sobre esse ponto, o acesso das mulheres será facilitado. Vi isso acontecer com Kawai Shihan. Ele não faz nenhuma diferença psicológica entre os sexos. Fisicamente, sim, ele respeita as mulheres. Mas Kawai Shihan respeita as condições físicas de qualquer pessoa, seja homem ou mulher. Uma vez, lhe perguntei, durante um yudansha, se existiam diferenças entre homens e mulheres no Aikido. Ele foi simples e direto: nenhuma. Todos podem aprender e treinar Aikido.
Presenciei muitos fatos nos dojos, envolvendo relacionamentos entre homens e mulheres. Aikido envolve contato físico, sentimentos e emoções. Reações são desencadeadas, e às vezes, mal trabalhadas pelos instrutores. O que causa sofrimento inútil para todos, mas principalmente para aquele lado que é o mais suscetível, aquele lado que projeta no instrutor(a) qualidades que ele(a) está longe de ter.
Quando uma pessoa, homem ou mulher, inicia seu treinamento no Dojo, está entrando em um universo diferente, e muitas vezes trazendo um forte pedido de ajuda implícito. Vamos combinar que, se tudo vai muito bem na vida, ninguém se dá ao trabalho de procurar uma prática difícil como é o Aikido. Fica em casa, com a família, se divertindo, tomando vinho, etc...
Muitos instrutores de Aikido são na maioria jovens, na faixa dos 25 aos 35 anos, homens, cheios de hormônios e com graduação alta, alguns dans. Muitas vezes, os dans não acompanham a maturidade emocional. Esses homens não sabem muito acerca de seus sentimentos, e só podem fazer o que está ao alcance deles. Isso significa olhar para as mulheres não como um instrutor, mas como um homem. E se um instrutor pensa assim, seus alunos pensam assim também. O clima é insustentável para uma mulher que queira simplesmente treinar, e não namorar ou paquerar. O dojo desse instrutor normalmente não vai ser muito limpo, os dogis são mal cheirosos e suados, o Aikido ali praticado é muito macho! Os homens costumam tirar o casaco do Dogi, no tatame mesmo, logo após o treino, e conversar assim, com os peitorais peludos à mostra. Cheira-se testosterona à quilômetros.
Várias vezes ouvi, em alguns dojos onde treinei, comentários jocosos entre senseis, instrutores e alunos (homens, é claro), sobre determinada aluna, ou sobre as mulheres em geral.
E esses mesmos instrutores freqüentemente reclamam da ausência feminina no dojo(!!!) E nunca formaram uma mulher faixa preta, apesar de ensinarem há muitos anos.
Obviamente existe a responsabilidade de uma mulher saber o que quer, quando entra em um dojo. Se ela estiver consciente do que realmente procura, não vai ter maiores problemas do que fazer de conta que não ouve certas insinuações, mas nada que a impeça de treinar. E nada que não aconteça também nas ruas no dia a dia.
É possível, sendo mulher, treinar e gostar de Aikido. E mais: é possível ensinar Aikido, sem misturar as coisas, não importa se homem ou mulher. Mas é preciso um trabalho constante de auto conhecimento para perceber as profundas questões éticas envolvidas num relacionamento onde existe uma ascendência de uma das partes. As relações que envolvem muitas projeções, como médico/paciente, aluno/professor, e cuja responsabilidade maior está sobre aquele que tem essa ascendência.
Na maior parte das vezes, o que vi nos dojos, foram relacionamentos onde houve muito sofrimento, e geralmente a parte mais sensível aos danos vai embora com muitos machucados psicológicos e mentais, e totalmente desencantada com o Aikido.
Conversando sobre esse assunto com um sensei graduado, ele me diz que o instrutor deve cuidar para ter uma situação familiar estável, cercar-se de afetos entre os seus, e ter firmes princípios éticos de não envolvimento emocional desnecessário com alunos ou alunas. No dojo dele, famílias treinam juntas, muitas mulheres (raridade) e um clima tranqüilo.
E tem o dojo do inesquecível e falecido Peter Bacas Sensei, da Holanda. Neste dojo, muitas mulheres com graduação alta. Enormes mulheres holandesas, esse povo de gigantes. Lindas, com Aikido muito feminino e suave, e muito, muito forte, desses que dá medo. Um clima muito bacana de amizade.
Sinto, durante os treinos, seja com crianças ou adultos, que quando há mulheres ou meninas no tatame, o clima se distende. Aumenta a cortesia e a educação. Sem prejuízos à marcialidade. Conheci mulheres no tatame muito mais marciais do que homens, sem deixar de ser totalmente femininas. Porque Aikido equilibra a energia. Suaviza e fortalece ao mesmo tempo.
No Brasil, em muitos dojos, existe um clima “macho” insuportável até mesmo para os homens. Nestes dojos, as mulheres são olhadas com condescendência, podem realizar tarefas como fazer o chá, dobrar os hakamas, colocar florzinhas, organizar as festas e outras coisinhas, e gravitar em torno desses maravilhosos dans e seus super poderes de atração.
Obviamente, concordo que, às vezes, acontecem no tatame relações maduras e que podem e devem ser aprofundadas também fora do tatame, mas é preciso saber muito bem o que se está fazendo, para evitar danos irreparáveis ao dojo, ao grupo, e a si mesmo.
Quando falta ética, perdemos todos. O Aikido perde alunas e alunos e perde o sentido de um caminho tão bonito tanto para homens e mulheres ou meninos e meninas.
E nós todos perdemos futuros(as) colegas com quem teríamos gostado de treinar.
Bete
Romanzini
publicada em 13/03/2008
Site de Origem: http://www.aikidotensei.com.br