Sobre a forma

(Uma visão do Tai Chi Chuan)

 

Quando começamos a estudar o Aikido ou qualquer outra arte, seja esta marcial ou não, iniciamos nosso processo de aprendizado pela execução repetitiva do é denominado formas básicas.  Posteriormente praticamos as técnicas mais avançadas do sistema e finalmente chegamos a um grau de treinamento onde nos é dada liberdade para criarmos novas formas através dos princípios aprendidos com a execução exaustiva das formas mais elementares.

 

Os Kihon, ou seja técnicas básicas, são a essência de um sistema marcial e a compreensão dos princípios inerentes a cada um é a forma pela qual nos desenvolvemos dentro da arte escolhida, no nosso caso o Aikido.

 

As artes marciais possuem elementos técnicos e filosóficos que muitas vezes são compartilhados por diferentes sistemas marciais mesmo que os mesmos não tenhão sua origem na mesma cultura. Abaixo anexei o trecho de um texto escrito em 1978 pelo professor de Tai Chi, Al Chung-Liang Huang, onde ele  expressa maravilhosamente alguns aspectos do Tai Chi que são também compartilhados pelo Aikido ao meu ver.

 

Sublinhei as passagens que me pareceram mais interessantes, mas sugiro a leitura completa do texto pois o mesmo é muito enriquecedor.

 

 

 

 

Aprendi várias formas de Tai Chi quando era criança. Íamos de uma aldeia para outra, fugindo da guerra Sino-Japonesa. em cada aldeia havia alguém que praticava Tai Chi, e eu praticava junto. Como criança não tinha a preocupação de saber se aquele era o "melhor mestre", se era famoso ou se me daria algum certificado. Eu simplesmente praticava com quem quer que fosse. Qualquer forma é somente uma expressão da essência do Tai Chi. Portanto não se detenham com apenas uma parte do todo. Se vocês se limitarem à estrutura de uma das formas, perderão a essência.

 

 Mais tarde lhes mostrarei aos poucos algumas seqüências curtas e motivos que lhes darão uma estrutura sobre a qual poderão trabalhar. Quando vierem praticar comigo amanhã, comecem por perceber o movimento no exterior e no interior do corpo. Usem o mar, usem o vento, tornem presente a respiração. Vejam se conseguem começar a se mover a partir do sentido de onde vocês se encontram. Sigam este princípio de energia e acompanhem-no.

 

 Agora deixem-me ver como vocês tentam começar. Deixem o corpo se assentar na base. Então oscilem um pouco e descubram onde estão. Ajustem os pés, encontrem-se a si mesmos, centralizem-se. Ao mesmo tempo, não plantem os pés no chão. No momento em que disserem "Este é um bom lugar para ficar", estarão cravados como um prego. Vocês devem sentir o movimento sob os pés como se estivessem andando sobre o mar. Sintam o fluxo de energia através da expansão da respiração e do alongamento do corpo. Ambos ocorrem simultaneamente. Então prossigam erguendo os braços desde as costas e os ombros. Quando os braços se erguerem, deixem que eles se apóiem sobre uma superfície móvel e irregular, como as ondas do mar.

 

 Quando tiverem a sensação de fluxo, brinquem com a esfera Tai Chi. Utilizem o interior das mãos e dos braços para tomar a forma da esfera e comecem a movê-las em redor. Mantenham a sensação enquanto manipulam a esfera, e deixem que ela se transforme gradualmente. Deixem-na aumentar de tamanho ou encolher. Podem alongar um dos lados de forma que ela tome a forma de um ovo. Podem esticar os lados de forma que ela se torne mais achatada. Podem erguê-la um pouco mais alto ou deixá-la mover-se à sua volta. Estejam certos de trazer sempre a curva de volta para não perderem o seu centro.

 

 Mantenham a espinha no meio, e terão sempre um lugar para retornar. Isto é como Kundaline-Yoga, a serpente, a energia ígnea que se move na espinha. Aquela sensação de que um disco da coluna vertebral se move de cada vez e cai em círculo, indicando-lhes a localização do centro. Se curvarem as costas, se moverem o centro, não saberão para onde voltar, é preciso manter o torso ereto para ser um ponto de referência.

 

 Vocês precisam manter o sentido de centro enquanto executam este movimento livre com a esfera. Manter-se centrado significa que vocês percebem que este movimento específico do braço se relaciona com o centro desta forma. Que essa abertura de perna executada dessa maneira se relaciona com o centro dessa forma. Assim, há algo a ser mantido enquanto se movem. Isto é para evitar que vocês se banhem em Champanhe Borbulhante e simplesmente se divirtam, sem compromissos: poderão ficar tão relaxados a ponto de se sentirem imóveis e em pouco tempo adormecerão. O Tai Chi é para despertá-los; para que mantenham o sentido de centro e o contato com o ambiente ao redor.

 

 Vocês vêem todas as pessoas em volta? Vêem as cadeiras, o chão, a pessoa mais próxima? Mantenham também os ouvidos abertos. Ouvem a conversa na sala ao lado? Ouvem a sua própria respiração e a da pessoa mais próxima? Ouvem o arrastar de pés? Mantenham-se alertas e receptivos ao meio ambiente, sem perder o centro. Esta é a meditação Tai Chi. Se vocês a realizarem desta maneira, a forma continuará a desafiá-los. Ela se tornará espontânea com o movimento do corpo à medida que forem seguindo o processo. É muito fácil começar se vocês deixarem que a meditação tenha início desta maneira. Porém, é muito difícil mantê-la; é tão fácil perder-se. É para isso que existe a forma.

 

 Cedo pela manhã, antes do desjejum; essa é uma boa hora de praticar Tai Chi. Ao começarem respirem profundamente e estendam a respiração ao movimento. Cada vez que começarem terão que redescobrir novamente o centro. Mesmo depois de praticar durante algum tempo, não existe nenhum lugar seguro onde se sabe que "sempre posso começar daí". Não se pode depender de experiências passadas ou do acúmulo delas. Vocês sempre começarão aqui mesmo, onde estão, com o sentido de si mesmos e do ambiente, agora.

 

 Meu ideal deste WorkShop é recriar de alguma maneira o processo dos antigos mestres que criaram o Tai Chi original. Como eles o fizeram? Se puderem experimentar parte desta criação original individual, talvez algo sairá de vocês. E então o Tai Chi será seu. Será o seu Tai Chi Chuan.

 

Mestre Al Chung-Liang Huang

 

 

Rubens Caruso Junior

                                                            15 de Novembro de 2007