O Aikido do 1
Há poucos dias tive a
felicidade e o privilégio de participar do segundo maior seminário de Aikido da
história. Os organizadores conseguiram a proeza de reunir mais de duas mil
pessoas para um evento de três dias em São Paulo. Tamanha organização não foi
por acaso, pois se tratava da primeira visita de Moriteru Ueshiba ao Brasil. Seu
pai, Kishomaru Ueshiba esteve aqui há mais de 25 anos, portanto, depois de longa
espera todos estavam ansiosos pela visita do maior líder do Aikido mundial.
O que me impressionou logo no primeiro dia foi a formalidade e o respeito de
todos para com o mestre. Ele, um verdadeiro príncipe ao entrar e sair do tatame,
só arriscava um sorriso quando aplaudíamos agradecidos no final dos treinos. Em
relação a técnica, o que dizer? Demorei a escrever esse texto porque não
conseguia colocar em palavras o que vi. Era uma mistura de precisão com
simplicidade, de energia com harmonia. Sem dúvida alguma estávamos diante do
verdadeiro espírito do Aikido. Quando ele demonstrava as técnicas eu tinha a
nítida impressão de estar vendo os livros antigos seu avô Morihei, onde ele
realizava seus movimentos com total serenidade e qualidade. Sentei-me próximo ao
local onde ele fazia as demonstrações para acompanhar todos os detalhes e
truques. Queria ver e ouvir tudo que passava, era uma compulsão pelos detalhes.
De repente percebi que essa minha motivação não tinha razão de existir, e foi
este sentimento que mais me motivou a escrever este texto.
Desde quando comecei a treinar Aikido, lá em 1997, a forma como os movimentos e
técnicas eram ensinados baseava-se na sua decomposição, ou seja, aprendíamos as
partes que compunham um todo. Moriteru Ueshiba defende o Aikido sem quebras ou
subdivisões. Neste momento entendi que este era o Aikido do um.
Segundo o mestre, devemos entender o movimento através de um olhar global. A
técnica é única e não a soma de um conjunto de pequenas técnicas complementares.
Durante um dos treinos ele até chegou a dizer: “é um erro dividir a técnica em
20 ou 30 passos. A técnica é uma só”. Daí o segredo de tanta simplicidade e
objetividade.
Enchemos os principiantes de detalhes que nem sempre fazem a diferença durante o
treino. Sem dúvida que é ansiedade de professor, aquela que nos força a falar e
falar até que alguém resolva balançar a cabeça positivamente liberando o treino.
Existe também o ‘orgulho inabalável’ dos professores onde não importa a
qualidade da contribuição do aluno, pois o professor sempre terá a última
palavra em defesa de sua razão. Esquecemos que somos humanos, que em essência
não temos nem somos donos da verdade. Esquecemos também que a razão é uma dádiva
da inteligência humana, que permite ao faixa branca ensinar o faixa preta. Uma
saída para esses problemas talvez seja o Aikido do um, com menos falatório
durante os treinos e mais observação. Devemos aprender com nós mesmos, olhando
para o parceiro e para dentro de nós durante os treinos. O Aikido do um é
simples porque foi adaptado à natureza do corpo humano, sempre levando em conta
suas limitações e potencialidades. Nele ninguém dá passos maiores que suas
próprias pernas. Creio que a vinda de Moriteru Ueshiba foi muito oportuna para
mostrar as diferenças entre a origem e o que se tem por ai. Não defendo aqui uma
ou outra, não seria ético com meus colegas nem elegante com minha mestra, mas
defendo que existe uma interessante diferença que merece ser entendida e
incorporada. Ao meu ver, os benefícios dessa percepção viriam através de Dojos
mais receptivos ao grande público, treinos mais democráticos e a adoção de uma
“nova forma velha” de praticar a arte, sempre buscando a harmonia e a união,
seja no Dojo ou fora dele. Vida longa ao um.
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as opiniões expressas aqui são unicamente do autor e não refletem de forma
alguma a opinião do Grupo de Aikido Nova Era e/ou de seus membros integrantes.
Rodolpho Arruda
23/Junho/2006
Fonte: http://www.aikidonovaera.com.br ou