Uma Aula de Aikido
Uma aula convencional de Aikido transcorre assim: antes mesmo de seu início propriamente dito, o sensei (professor) já orienta os seus alunos para deixarem os seus chinelos do lado de fora do tatâmi, em posição perpendicular a este, voltados para fora (num dojo – “lugar de iluminação” – não é elegante conversar, comer, mastigar chicletes, permanecer de chapéu, cruzar os braços ou as pernas; só se deve sentar à moda oriental, com os pés cruzados à frente do corpo); o sensei (que vai ministrar a aula) coloca-se à frente de todos os alunos, inclusive os faixa-pretas. Os alunos se alinham por ordem de cor de faixa, os mais graduados à direita, e os menos graduados à esquerda: faixa preta primeiro, depois marrom, azul, verde, roxa, amarela, laranja (infantil, se houver) e branca. Todos se sentam em seiza, postura tradicional japonesa, ajoelhados e com os quadris acomodados sobre os calcanhares. O sensei pronuncia um “hey” bem forte, e todos que estavam de mãos postas para o kamizá (pequeno altar budista que fica obrigatoriamente afixado à frente do dojo, no centro da parede, com uma foto do Fundador, Morihei Ueshiba Sensei, o O-Sensei – ou “O Grande Sensei” em Português - à esquerda do mesmo e um pouco abaixo do nível do kamizá) reverenciam primeiro o kamizá, e depois a foto do O-Sensei; mãos postas novamente e todos, num movimento único, batem palmas três vezes (a primeira vez, é “a minha presença no Universo”; a segunda é “a presença do Universo”; a terceira é “a integração do “eu” com o Universo”), reverencia-se o kamizá novamente. Então o sensei vira-se de frente para os alunos e a reverência se repete (mãos espalmadas sobre o tatâmi, dedos unidos, a testa quase se encosta no dorso das mãos), e este diz para os alunos: “Onegaishimássu!” (que pode ser traduzido, mais ou menos, como: “Por favor!”, ou ainda como: “É uma honra treinar com vocês!”), e estes repetem a saudação dizendo a mesma coisa ao sensei. Aí começa a série de exercícios, em geral de alongamento e de relaxamento, sempre orientados pelo sensei, ao som de contagem até oito, em Japonês, com a finalidade de se descontraírem os músculos (no Aikido não deve ser utilizada a força bruta em nenhuma ocasião). Alguns fundamentos do Aikido são treinados individualmente, como o “Funagogi-undo” (exercício do remador), o “Dai-iti-kyo-undo” (projeção dos dois braços, conjuntamente, desde a cintura até a altura da testa, mais ou menos), o “Tenkan-undo” (exercício de tenkan, movimento rotatório que é o principal fundamento do Aikido, onde se desvia dos golpes desferidos pelo oponente) e o “Irimi-tenkan-undo” (exercício de tenkan que é iniciado dando-se um passo à frente, depois de desferido o ataque). Após esses exercícios, treina-se um outro fundamento do Aikido que são os rolamentos: para a frente (Mae-ukemi), para trás incompleto (Ushiro-hanten-ukemi), para trás completo (Ushiro-kaiten-ukemi) e lateral (Yoko-ukemi). Aí principia-se o treino dos kata (golpes): o sensei demonstra cada um com o seu Uke (a pessoa que desfere o ataque e que recebe os golpes, normalmente o mais graduado dos alunos), diz o nome do kata, e diz: “Onegaishimássu!” em seiza, fazendo reverência aos alunos e levantando-se em seguida. Todos os alunos repetem a saudação para o sensei e fazem reverência a ele; escolhem um parceiro com quem treinar, reverenciando para este e repetindo a saudação, e executam o golpe, primeiramente o mais graduado, depois o menos graduado (se houver dois alunos de mesma graduação, começa sempre o mais velho), até o sensei pedir para pararem, quando cada um diz para o parceiro: “Domo arigatô gozaimashtá!” (“Muitíssimo obrigado!”), também seguindo-se de uma reverência. E assim se procede até o final da aula. É muito importante tomar-se o cuidado de jamais se machucar o parceiro num movimento mais brusco, e sempre encerrar-se o kata assim que o parceiro bater com a mão aberta sobre o tatâmi, significando estar imobilizado. O Aikido é um caminho para o aperfeiçoamento físico e espiritual, e não uma disputa onde um tenta vencer o outro; os dois parceiros devem auxiliar-se um ao outro na busca do crescimento de ambos. Detalhe: ninguém deve falar durante um treino, com exceção do sensei que está ministrando a aula e dos faixa-pretas, que poderão orientar os menos graduados em voz baixa. Se o sensei perceber que alguém está executando o movimento erradamente, ele toma o parceiro do aluno que está errando e executa o movimento corretamente. Nesse instante, todos se sentam em seiza imediatamente e, ao final da correção, dizem ao sensei: ”Domo arigatô gozaimashitá!”, reverenciando, e continuam o exercício normalmente. E assim se procede até o final da aula, que dura, geralmente, entre uma hora e meia e duas horas. Aproximando-se o término da aula, são feitos alguns exercícios de relaxamento e de alongamento, dando-se ênfase à respiração. Para se encerrar a aula, repetem-se os mesmos procedimentos do início da aula, alterando-se somente a frase que é pronunciada: ao invés de se dizer: “Onegaishimássu!”, diz-se: “Domo arigatô gozaimashtá!” para o kamizá, depois (quando o sensei se voltar para os alunos) para o sensei (e este para os alunos), e estará terminada a aula. É interessante destacar que todos os alunos (ou senseis) que usarem hakamá (calça preta e larga da tradição japonesa) devem vesti-lo sobre o quimono somente quando estiverem pisando sobre o tatâmi, e retirá-lo, ao final da aula, também ainda sobre o tatâmi, dobrando-o respeitosamente em seguida; não é elegante ausentar-se do recinto do dojo vestindo o hakamá do Aikido. O hakamá deve ser usado pelos homens a partir do grau de shodan (faixa-preta de primeiro grau) e pelas mulheres já a partir da faixa verde (terceiro kyu); todavia o uso do hakamá varia dentro da linha de Aikido seguida pela academia que se freqüenta; há senseis mais tradicionalistas que obrigam seus alunos a utilizarem o hakamá desde o primeiro dia de aula na faixa branca, e consideram um desrespeito o aluno treinar sem o mesmo. Para todos os costumes deve haver sempre muita moderação e serenidade, independentemente do nível de disciplina imposto às pessoas, e nunca imposição pura e simples de normas vazias de significado.
Uma aula de Aikido de Keizen Ono Sensei, meu Mestre, segue, em princípio, tudo o que foi exposto acima relativamente a uma aula normal, excetuando-se os seus ensinamentos constantes, que sempre permearam as suas aulas, sobre a filosofia do Aikido e sobre as diversas nuanças dessa nobre arte (tão profundamente conhecida e pesquisada por ele) e o aquecimento inicial, que é substituído (na maior parte das vezes) por uma seqüência de exercícios de sokushin-kokyu-ho, técnicas de “respiração pela sola do pé” trazidas do Japão e que foram incorporadas ao treinamento do Aikido por esse grande Mestre. Justifica-se: uma vez que o sokushin-kokyu-ho é um exercício de total integração do homem com o Universo, não se precisará executarem-se exercícios físicos preparatórios para a aula, já que o aikidoísta está perfeitamente integrado ao “todo universal” e aos movimentos circulares naturais, inerentes a tudo que existe no nosso mundo, desde as órbitas dos planetas, às trajetórias dos elétrons em torno do núcleo dos átomos.
Walter Núñez Martínez (Shodan em Aikido).
São Paulo, 15 de julho de 2003.