Vem correndo...
Sábado, início de 1993. Um amigo me convidou para ir assistir a um treino infantil de Aikido, no Dojo da Associação Pesquisa de Aikido a Rua das Carmelitas, pois ele pretendia matricular seu filho de 8 anos.
O treino infantil
semanal era dirigido pela nossa Sensei, Maria Luiza Serzedello, que todos os
sábados reunia um pequeno grupo de crianças para ensinar os fundamentos do
Aikido. A beleza dos movimentos, a cortesia e disciplina, o empenho das crianças
e principalmente o carinho e a dedicação da "professora" levou-nos a matricular
nossos filhos.
Foi aí que tudo
começou... Todos os sábados íamos nós: pais e filhos para treino. Os filhos no
tatami e os pais nas cadeiras. Os filhos faziam os movimentos e nós
acompanhávamos com os olhos e cabeça, e todos nós íamos assimilando o Espírito
do Aikido.
Naquele grupo de
pais, havia um que treinava Aikido e talvez por isso mesmo de vez em “sempre”
interferia no treino, exigindo mais empenho de seus filhos (como todo pai faz):
um com 8 anos e o outro 5 anos, imaginando que uma criança pudesse executar os
movimentos com a perfeição de um Mestre, inclusive aprender os nomes em japonês
“de dar nó na língua” daqueles katás que dão nó no corpo. Assim foi rolando o
ano.
No último treino do
ano a Sensei fez algo diferente: disse que havia dado aula o ano inteiro e que
naquele dia seriam os alunos que iriam dar aula demonstrando alguns dos “golpes”
aprendidos.
Foi chamando as crianças uma a uma, dos mais novos aos mais antigos para “darem a aula”. Aquele pai exigente foi dizendo: “ - quero ver o que os meus (filhos) vão fazer; nunca prestam atenção em nada...”
...E dá-lhe Dai Iti Kyo, Ni Kyo,
Irimi, Swari Waza Kokyu Ho, Shiho Nague e os golpes “mais fáceis” foram se
esgotando...
Chegou a vez do garoto de 5 anos,
filho “daquele” pai. Ele cumprimentou a Sensei, parou na frente daquele grupo,
pensou, pensou, coçou a cabeça. Não havia sobrado nenhum dos “fáceis” para ele.
AÍ..., ele estendeu a mão e falou para a Sensei: “ - vem correndo..”. Ninguém
entendeu o que ele quis dizer ou fazer. Muito menos o pai, que disse: — “esse
cara é louco!”. O menino repetiu o gesto e a frase mais algumas vezes, até que a
Sensei entendeu o golpe que ele queria mostrar: “era um dos movimentos mais
bonitos e complexos do Aikido, (abre daqui, dá a volta ali, movimenta o corpo,
oferece a outra mão, deixa o atacante passar por trás e arremessa), um dos
preferidos do nosso Mestre ONO SENSEI e também da Lila Sensei: “Ushiro Ryo Te
Tori Kokyu Nague”, um nome que precisei consultar a Sensei para poder
escrever...”
É este o motivo deste artigo. Nem
sempre conseguimos expressar com palavras aquilo que aprendemos com nossa Sensei
nos treinos; muitas vezes teremos que fazer gestos desengonçados para nos
fazermos entender, porém ela sempre dará um jeito de adivinhar e nos motivar
para encontrar o Caminho.
P.S.
Realmente aquele garoto “não se empenhou e não aprendeu nada”. ERA UM LOUCO!
Edson Rogovsck
09.04.2005