Entrevista com Ono Sensei
2°parte
23) O senhor fala muito de Kokyu nas suas aulas. Como explicar esse conceito para os praticantes?
A palavra Kokyu é respiração. Mas não é só isso. Por exemplo, algum artista tem alguma sensação que recebe, chama isso de inspiração. Kokyu é a mesma coisa, eu acho. Também, é comum uma palavra em japonês Iki Kokyu. Iki é uma palavra que em japonês significa viver, Iki ou Ikeru. Quem vive aqui, pensando ou não, está fazendo Kokyu. Então, não dá para separar essa parte de respiração. Por isso, acho muito importante, junto com a parte de energia, ligar o Kokyu com a formação da Terra, do Sistema Solar e do Universo. Também, é muito importante a força da Terra e do Universo, isso é Kokyu. Por isso, forço essa parte, para descobrir alguma coisa para deixar para a gente.
24) O senhor tem um grupo muito grande de alunos no Espírito Santo. Como é vê-los crescer, poder ir para lá e treinar com eles?
Isso é um sonho realizado. O pessoal de lá é a mesma coisa que um filho. Aluno é assim, o mesmo que filho. Por isso, eu discuto com as pessoas, troco idéias para ver uma forma mais profunda de ligação com eles. Lá é um pouco longe, tem a dificuldade financeira, mas o que mais falta é tempo. Mas tenho que estudar um modo de ter uma ligação maior. Sempre vou pesquisar algo para poder levar para lá e trazer o pessoal aqui também. Isso é muito importante para quem mora fora.
25) O senhor tem um grande respeito pelo Mestre Kawai shihan. Como é seu relacionamento com ele?
A ligação mestre e discípulo no Budo é maior que pai e filho. Minha ligação com Kawai sensei é tão profunda que qualquer coisa na minha vida, seja aikido ou acupuntura, foi ele que me orientou, teve o carinho dele. Isso é o mesmo que faço com os meus alunos. Essa gratidão ao Kawai sensei sempre está dentro do meu coração.
26) Esse ano o aikido no Brasil faz 40 anos. Como o senhor vê o crescimento do aikido no Brasil?
A ramificação do aikido no Brasil é muito grande, o trabalho do Kawai sensei é enorme. Eu também, dentro do grupo dele, queria fazer alguma coisa. Mas estou contente, pois aqui no Brasil tem grandes aikidoístas, fico muito satisfeito e contente com isso.
27) E o que o senhor espera para o futuro do Aikido no Brasil, do seu próprio e dos seus alunos?
Eu sempre tenho orgulho dos membros do nosso grupo, e também dos membros do aikido no Brasil. Espero que todos, no Brasil, possam crescer bastante. Um bom crescimento do aluno é um orgulho para o professor.
28) Atualmente, o senhor dá aula. Como é o seu treinamento pessoal? Ou o senhor apenas dá aulas?
O pessoal deve estranhar, eu não vou a nenhum yudanshakai. Mas eu sempre pesquiso alguma idéia, alguma força dentro e fora da gente, essa é a minha ajuda. E também, sempre treino nos Koshukai do Fujita shihan e do Yamada shihan (Hirunobu ), para receber alguma instrução.
29) O senhor acha que o Aikido do Fujita shihan está ajudando a melhorar o Aikido do Brasil?
Isso nem dá para discutir. Depois que o Fujita shihan veio para o Brasil, eu acho, que mudou muito o aikido por aqui. Bom tem outros grupos que não tenho contato. Mas dentro do nosso, que é o do Kawai sensei, nessas sete ou oito vezes que o Fujita shihan veio, já modificou muito. Todo o ano nós esperamos a vinda dele. Ele é muito bom, sempre dá aula reforçando as bases.
30) De alguma forma, o senhor acha que o Aikido do Fujita shihan também infuencia no seu?
Eu acho que sim. Sem perceber, nós
recebemos o seu ensinamento. Lógico, ele sempre vem dar aula e alguma coisa
sempre fica implantado dentro da gente. Coisas como visão que parecem são
pequenas, mas aquilo que nós recebemos dentro da gente é mais importante, pois,
sem saber já está influenciando. Essa força é muito importante.
31) Atualmente, o aikido tem um novo Doshu, Moriteru Ueshiba. Como o senhor vê o sistema de iemoto no Japão e qual é a importância desse novo Doshu para as próximas gerações?
Bom, toda arte japonesa tem isso, e eu acho que é muito importante esse sistema. Eu conheci Moriteru Ueshiba Doshu uma vez em Tokyo (1977), ele é muito bom, tanto pessoalmente como na parte técnica, tudo muito perfeito. Então, para o Aikido do mundo, não só do Japão, é muito importante o papel dele. Eu não o conheço, atualmente, mas um dia vou encontrar com ele e aí receberei um pouco da energia dele. Quem sabe um dia ele vem para o Brasil e todo mundo vai conhecer a sua força. Por enquanto, nós só o vemos no video, mas ele é uma pessoa muito boa. Isso é muito importante para quem treina aikido.
32) O que é importante para um bom aikidoísta?
Bom, cada professor dá exemplo diferente, né? É coisa simples. Quem treina aikido procura aquilo que humanidade precisa. Só. Não tem essa coisa de quem treina aikido tem que ter isso ou aquilo. Para mim, é simples. A pessoa tem que ser bondosa para as outras pessoas, ser sério, né? Aquilo que a humanidade procura, dentro do aikido têm tudo, isso é o mais importante. O resto é dentro da regra de cada Dojo.
33) E o que é importante para um ser um bom professor de aikido?
Um bom professor de aikido precisa entender seus alunos, isso é muito importante. Geralmente é difícil entender, né? Então, tem que entender o aluno, o que ele procura e o que está precisando. Não é só a técnica. A ligação professor e aluno é igual, ou mais, do que a relação pai e filho. O resto, com a vida dentro do Dojo, vem naturalmente. Porque a técnica vem sozinha. Agora, o contato entre as pessoas é muito difícil, ainda mais nesta época. Então, a primeira coisa é entender o pessoal, entender o sofrimento do aluno, sofrer, sorrir junto com ele. O resto todo mundo sabe fazer.
34) O que o senhor espera para o futuro do seu Dojo?
O que eu sonho para futuro é que as pessoas respondam com o que eu procuro, para que meus alunos consigam plantar isso para o próximo. Graças que eu estou conseguindo isso. Então, sempre agradeço a Deus pelos meus futuros alunos. Tenho grande esperança e orgulho. Futuro é isso. Nós não podemos levar o futuro para dentro do caixão (risos). Quem é encarregado disso é o próximo. Não tenho queixa nem nada. Às vezes, fico meio bravo, mas isso são acontecimentos diários. Não tenho lucro próprio. Meu lucro é deixar algum conhecimento para criar meus discípulos, né? O que tem dentro da gente, o que procuramos agora, não dá para levar, só dá para deixar aqui. Então, eu procuro isso. As coisas vêm naturalmente e, naturalmente, ficam depois. Isso é Aikido.
35) Muitos alunos que treinam, ou treinaram, com o senhor, são hoje, sexto, quinto ou quarto dan. Como é olhar para eles e ver que se tornaram mestres de Aikido.
Eu fico tão contente com essas pessoas que cresceram! Cada um ao seu modo, está trabalhando para fundar e ramificar o Aikido aqui. Cada um conforme sua pesquisa fica diferente. Mas todo mundo faz sua parte para ramificar, todo mundo faz aquela parte integral do Aikido, para plantar aqui no Brasil. Por isso, diariamente agradeço a Deus.
36) Parece que o senhor sacrificou muito da sua vida pessoal pelo Aikido. Como o senhor vê hoje, toda a sua família ajudando-o no Aikido?
Graças que minha família toda, minha mãe também, me ajudou. Tudo foi para mim. Parece egoísmo, que não penso na minha família. Pelo contrário, são eles que cooperam comigo, tudo para mim, é tudo para o Aikido. Se não tivesse ajuda da minha família não teria tudo o que tenho e faço hoje. Por isso, não esqueço essa força que vem deles. Essa que é minha família.
37) Todos no Dojo sabem que se não fosse pela senhora Deise, não teria nada hoje. Qual é a importância dela para o senhor?
Não é só ela, é minha família toda. Inclusive, minha filha, meu filho e minha cunhada fazem muita força pelo Aikido. Eles é que seguram essa barra (risos). Sempre que penso no Aikido, lembro da minha família. Sem a força da minha esposa não teria vida no Aikido.
Obrigado, sensei, por esta entrevista.
Muito obrigado por me entrevistar. Espero que todo mundo abra seus corações, para construir o Aikido aqui no Brasil. Esse é meu sonho e meu dever. Defender o Brasil. Isso é minha mensagem para todo aikidoísta. Procurar o que a humanidade precisa. Dentro do ensinamento do Aikido, não é derrubar ou derrotar o parceiro, é construir a humanidade. Isso é o fundamental do Aikido, isso é o que devemos treinar e não esquecer.
Entrevista por Leonardo Sodré
09.02.2003