Aikido e as
defesas de chutes.
Durante as primeiras
aulas de artes marciais, algumas técnicas são ensinadas, com o intuito de
capacitar o iniciante a ter um contato com os tipos de armas que o corpo humano
é capaz de gerar. No começo, são ensinados alguns passos, com a finalidade de
mostrar ao aluno movimentos básicos. Dependendo do estilo ou modalidade, são
ensinados os primeiros golpes. No Aikido, as primeiras técnicas de queda, são
ensinadas, para que não hajam acidentes, e depois os katas iniciais mais
simples. Em Karate, as primeiras defesas e ataques com as mãos. Em Tae-Kwon-Do,
movimentos básicos com os pés.
Após algum tempo, as técnicas vão se sofisticando, evoluindo de modo que tanto quem aplica como quem recebe, percebem a evolução do seu próprio ser em relação a arte. E assim o tempo passa, sendo que o aluno vai galgando faixas, até chegar ao ponto de faixa-preta (ou shodan).
Porém, com um tempo
de prática , um sentimento de inquietação vem ao aikidoísta. O que acontece se
tivermos um ataque diferente do que esperamos? O que acontecerá se tivermos em
uma situação onde somos forçados a entrar em conflito? E se nosso oponente
conhecer algo que não temos vivência?
Neste primeiro
momento, vamos nos ater apenas em uma das questões. Quando o eventual agressor
conhece técnicas que não praticamos. Vamos iniciar com as técnicas de chutes.
Este ponto abre debate a algumas dúvidas:
Por quê não existem técnicas contra chutes em Aikido? Estarei em desvantagem em relação a outras Artes Marciais?
Uma das grandes
questões que circula entre leigos é “qual é a arte marcial superior? Karate,
Judô , Wushu , Capoeira, Boxe ou Jiu-Jitsu?”. Na verdade, não existe arte
marcial melhor ou pior, existe é lutador melhor ou pior sempre. Não se deve
atribuir a derrota a este ou aquele atleta em função da arte que ele pratica, e
sim do quanto ele se dedica a sua arte. Todas elas são perfeitas na sua
concepção. Apenas os homens é que as deturpam....
Sim, existem técnicas
de Aikido, para defesas de chutes. É um erro a comum no início da prática a
discussão sobre a eficiência ou não do Aikido , se ela é superior ou inferior a
outras .Não faz parte do espírito do Aikidoísta pensar no conflito, e sim
evitá-lo. Assim como não faz parte do Aikido saber se somos superiores ou
inferiores a alguém. O homem deve ter serenidade para admitir suas fraquezas e
humildade quando são apontadas suas qualidades.
Se as técnicas existem, por quê não as praticamos?
Vários são os
motivos, tais como:
-
Alguns estudantes, por se acharem habilidosos o bastante, não acreditam
que sejam necessárias.
- Por se tratarem de técnicas onde o efeito final é mais traumático, é necessário que tanto Uke como o Nague tenham bastante afinidade, para não gerar nenhum problema físico. Muitos professores tomam esta precaução, pois o Aikido foi feito para praticantes de todas as idades, e nem sempre uma pessoa de mais idade ou mesmo um iniciante estão preparados para esta técnica. É preciso um trabalho de base para estes casos antes de aplicar tais técnicas (o que não significa que tanto o mais velho quanto o mais novo não poderão aplica-las, pois são simples).
-
Nem sempre os alunos conseguem dar um chute que tenha a altura necessária
ou mesmo velocidade para treino/demonstração da técnica.
- Opção pessoal do professor, que delega esta tarefa para outro aluno mais graduado ou espera que seu estudante esteja mais preparado para mostrar as técnicas.
-
Alguns praticantes tem a idéia errônea que lutadores que chutam alto e
com força, normalmente são pequenos e de pouca complexão física. Daí relegam o
aprendizado para um segundo plano. Embora ao observarmos lutas entre praticantes
de full contact pesos-pena sejam costumam ser mais “dinâmicas” que a de
pesos-pesados, não se pode de maneira nenhuma achar que a perna destes últimos
profissionais citados seja lenta e que não é capaz de subir acima da cintura com
potência ou velocidade contundente.
-
Outros....
Devemos praticar? Como?
Deve-se procurar inicialmente treinar com uma pessoa que já tenha certa habilidade em quedas e com quem temos mais afinidade em treino (seja por uma questão de tipo físico próximo ao nosso ou mesmo pessoal).
Colocando-se a frente
do parceiro, pedimos ao mesmo que inicie uma série de chutes frontais enquanto
saímos da linha de ação do parceiro dando tenkan’s (movimento circular,
utilizando o jogo de pernas). Não importa no primeiro momento a altura, potência
ou velocidade do chute, e sim que tenhamos conseguido estabelecer um ma-ai
(distância nem longa demais para que o oponente saia fora do nosso raio de ação,
nem curta demais a permitir um contra-ataque) suficiente para evitar a agressão.
Com este primeiro
passo, damos início a uma primeira defesa (aqui descrita de maneira
simplificada), onde procuramos manter nossa mão sustentando a perna de ataque,
enquanto a outra entrando na altura da cabeça do adversário, aproveitando que o
mesmo encontra-se apoiado apenas em uma perna e com um movimento de “Ago ate” o
oponente cai.
A partir desta primeira técnica
dominada, pode-se procurar evoluir para outros tipos de chute, tais como os
laterais, giratórios e etc..
Quais os cuidados que devo tomar quando estiver em um conflito na rua e o agressor me ameaçar com chutes?
Neste ponto, cabem alguns comentários: se o agressor é versado em artes marciais e realmente tem amor a mesma, não será ele que irá iniciar a agressão. Normalmente a agressão é iniciada por pessoas que não são versadas em artes marciais. São, ao contrário que muitos pensam, pessoas comuns. Mas vamos analisar sob 3 aspectos:
-
O agressor não é versado em artes marciais, mas está chutando em altura
baixa ou média..
Neste ponto, deve-se
manter o corpo afastado, defendendo o mesmo através de tenkan’s , procurando
entrar na lateral ou mesmo atrás do adversário, de modo a ficar fora do raio de
ação do mesmo. Técnicas mais avançadas vão gerar violência desnecessária.
- O agressor tem algum conhecimento em artes marciais.
- Técnicas
de arremesso, em conjunto com os primeiros princípios (Itti Kyo, Ni Kyo, San Kyo
ou Yon Kyo) normalmente desestimulam agressores que tem este perfil.
- O agressor é versado em artes marciais.
Em Aikido, não somos treinados a ficarmos
recebem golpes contundentes o tempo todo. No caso acima, deve-se manter um ma-ai
suficiente para que em caso de avanço do oponente, utilizando técnicas de
imobilização, para deter o agressor. Neste caso, também, recomenda-se ao
estudante a observar outras artes, afim de acostumar-se aos mais diversos tipos
de chutes, lembrando que cada estilo, cada arte marcial e o país que a origina
acaba exercendo influência no tipo de movimento que é desenvolvido.
Lembramos ainda, que no caso de conflito com uma pessoa expert em artes marciais, o conflito deve ter a duração menor possível, procurando utilizar técnicas simples, nada de experimentar aquele movimento “secreto” que só vimos uma vez.
Considerações adicionais
Outro ponto muito importante, é que o perfil dos lutadores hoje está mudando. Com o advento de novas artes marciais, sem entrar no mérito se elas são válidas ou não, mas partindo do princípio que tudo evolui com o tempo, novos métodos estão sendo desenvolvidos. Isto faz com que o profissional das Artes Marciais esteja em constante processo de atualização.
Se formos mais a
fundo, a idéia que antes de lutas orientais eram compostas de chutes giratórios,
altos de uma velocidade impressionante está sendo reavaliada. Hoje, na maioria
dos casos, existe um trabalho de chutes que atingem no máximo a linha da
cintura. Também é comum o lutador iniciar com uma série de chutes baixos, na
coxa e joelho, minando a resistência do adversário, utilizando os mais altos
apenas quando tem certeza que o oponente não encontra mais forças, atingindo com
um chute mais alto a cabeça.
Não se deve deixar as técnicas de chutes de lado durante nossa prática. Mesmo que jamais sejam usadas, faz parte da trajetória de estudante analisar todos os tipos de movimentos. Não pensando necessariamente em um conflito pessoal, mas sim para preparar todos os que estarão por vir para outros tipos de situação.
Estas técnicas devem ser treinadas igualmente como treinamos defesas de tsuki, yokomen uchi, suwari waza, tanto dori e etc.. São apenas técnicas adicionais, que não devem ser esquecidas ou relegadas a um segundo plano, seja em função de faixa que o praticante ostenta ou mesmo de experiências anteriores.
Marcos Yoshino
06/2003