O HOMEM DO MUNDO
(2° parte)
O primeiro passo de todos, absolutamente necessário, sem o qual não é possível nenhuma aproximação e pelo que o aperfeiçoamento interno pode sempre alcançar realização, pode ser condensado nestas breves palavras:
O Serviço do Homem.
Eis aí a primeira condição, sitie qua non. Pelo egoísmo, nenhum progresso é possível; pelo altruísmo, o progresso é seguro. E em qualquer vida em que o homem comece a pensar no bem comum mais do que no seu próprio, seja que se aplique ao serviço de sua cidade, de seu departamento, da nação, da mais ampla de todas as nações a um só tempo, resolutamente ao serviço da Humanidade, cada um destes objetivos constitui um passo para a Senda e prepara o homem para nela se firmar.
Não há aqui distinção entre as espécies de serviço, desde que seja altruísta, firme e movido pelo ideal de ajudar e de servir. Pode ser puramente intelectual, o trabalho do escritor, cuidando de difundir entre os outros o conhecimento que obteve, afim de que o mundo possa ser um pouco mais prudente, um pouco mais inteligente, de acordo com o que aquele homem tenha vivido e escrito. Pode ser pelo serviço da Arte, no qual o músico, o pintor, o escultor e arquiteto manifestam seu ideal de tornar o mundo um pouco melhor e mais formoso, a vida algo mais doce, mais cheia de graça e de cultura para a Humanidade.
Pode ser pela via do Serviço Social, quando o homem, movido de simpatia para com a pobreza, para com o sofrimento, dedica sua vida na obra de auxilio, esforça-se por modificar a constituição da sociedade onde ela necessite de reforma, procura modificar os costumes e processos usuais vindos do passado; úteis então, tornaram-se um anocrinisno presente, e constituem um impedimento para o progresso melhor que a humanidade conseguiria atualmente rodeando-se de ambiente mais nobre. Pode ser ao longo do caminho do Trabalho Político, em que a vida interna e externa da nação é o objetivo de serviço. Pode ser pelo caminho da Saúde, em que o médico procura levar a saúde ao lugar da moléstia e preparar boas condições para o corpo, afim de que este possa desfrutar de mais saúde e longevidade do que o seria de outro modo. Não posso enumerar-vos uma por uma as numerosas divisões da Senda do Serviço.
Nessa Senda se inclui tudo quanto possa ser de valor para a vida do homem. Escolhei, pois, que caminho preferis, conforme as vossas capacidades e oportunidades; isto não tem grande importância em relação aos primeiros passos. Comércio, indústria, tudo o que é usual para o homem, produção, distribuição, tudo isso representa serviços para a Humanidade e provê suas necessidades.
Direis que cada qual está ocupado em uma ou outra destas coisas, que mencionei, ou tem uma ocupação análoga na vida, isso, é verdade, porque o caminho que leva à Senda se assenta na vida humana, e nada existe necessário ao desenvolvimento e evolução dessa vida, que não possa converter-se em um passo para a Senda. A dificuldade se estriba nas condições do mundo. Verdadeiramente, os homens seguem todas estas vias e muitas mais. Eles produzem, distribuem e tornam parte na indústria e no comércio; são escritores, artistas, políticos, reformadores sociais, médicos, o que quiserdes, porém com que objetivo e movidos por que motivo? Eis aí a diferença entre o homem que segue o curso ordinário da evolução, avançando por seu trabalho ou seu estudo, e o homem que avança, porém que o faz com o objetivo de ser útil e não por causa do êxito pessoal; com o fim de elevar a Humanidade um pouco mais, e não somente por ganhar para sua subsistência.
Não falo com nenhuma idéia de rebaixamento ou desprezo daqueles que trabalham apenas com objetivos comumente mundanos. Esta é uma parte necessária à evolução. Como desenvolveria o homem a sua mente, como refrearia suas emoções, como se desenvolveria mesmo fisicamente, se não experimentasse os caminhos do mundo e não se esforçasse por alcançar êxito neles?
Está bem que os homens trabalhem pelo fruto de suas ações; que lutem para consegui-lo; que sejam ambiciosos; que se afanem pelo poder e altos postos, pela fama, honras e renome. Brinquedos infantis! Sim, são brinquedos, mas brinquedos com os quais as crianças aprendem a andar; os prêmios da escola da vida, pelos quais as crianças são estimuladas ao esforço; as láureas da luta da vida, pelas quais se desenvolvem as energias e as futuras possibilidades. Não desprezeis a massa comum do mundo, na qual os homens se esforçam e lutam cometendo muitos erros, desatinos, muitos pecados e mesmo crimes, pois tudo isso são lições da escola da vida, são estágios pelos quais cada homem tem de passar.
Assim como a furiosa luta no mundo do bruto desenvolve a força e a astúcia e o poder para defender a vida, assim as lutas impetuosas entre os homens desenvolvem o poder da vontade, o poder da mente, o poder da emoção, e até o poder dos músculos e nervos. No mundo que procede da infinita sabedoria e o infinito amor, não há lição na vida que não tenha seu objetivo, e em todos os prêmios do mundo - chamai-os brinquedos do mais alto ponto de vista, pois podeis assim chamá-los — em todos os frutos da ação que na vida mais elevada se vos pede que renuncieis, e que deixeis de um lado, em cada um deles Deus está oculto; em cada um deles Sua atração é o único poder que seduz, e ainda que se rompam em pedaços quando vos apegais a eles, ainda que a ambição se transforme em cinzas depois de satisfeita, ainda que a riqueza se converta num fardo depois de conseguida, ainda que o prazer se torne enfado depois que se tenha enchido o cálice do mesmo, sempre a mudança é outra lição. A lição que deveis recordar foi esquisitamente tratada pelo poeta cristão George Herbert:
Quando Deus fez o primeiro homem,
tendo um vaso cheio de bens ante si,
“derramemos — disse — tudo o que nele pudermos;
concentremos nele todas as riquezas
que se acham esparsas pelo mundo.”
O poder foi o primeiro que saiu;
seguiu-se logo a beleza, a sabedoria, a honra, o prazer.
Quando quase tudo estava feito, Deus se deteve, ao perceber que,
de todo o seu tesouro, só a tranqüilidade ficava no fundo do vaso.
“Se eu chegasse — disse —a conceder esta jóia à minha criatura,
adoraria as minhas dádivas e não a mim,
e a elas na Natureza, não a Deus na Natureza,
com o que perderíamos ambos.
Deixemo-lo gozar dos demais, porém que desfrute com descontentamento e inquietude;
deixemo-lo ser rico, enfastiar-se, que ao final, se não o impulsiona o bem, já o enfado
o levará junto ao meu coração”.
Esta é a grande verdade do que é ao mesmo tempo valioso e desprezível na vida humana; valioso, porque desenvolve as faculdades sem as quais não há progresso possível; desprezível, porque tudo nela se rompe em fragmentos e deixa as mãos vazias até que estas, por fim, se agarram aos pés do Senhor. Aí está, pois, o valor da vida comum, e o nosso homem do mundo começou a reconhecer que não é em buscar o prazer, as honras e as riquezas para si próprio que se encontra uma satisfação permanente, e sim, no serviço aos seus semelhantes, na ajuda aos miseráveis, em ensinar os ignorantes, em levantar os oprimidos, em aliviar as tristezas dos desvalidos.
Muitos existem entre vós hoje que possuem riqueza e conforto, cujos corações estão aflitos pelas tristezas do mundo, e, que, no entanto, , podem permanecer em seu conforto, em. seu luxo, enquanto que outros se encontram morrendo de fome, miseráveis, oprimidos sob a carga da vida. Oh! o despertar da consciência social entre nós, o reconhecimento do dever social, da responsabilidade social, é o mais nobre sinal da evolução do homem, uma prova da vinda da nova raça, que mostrará simpatia em vez indiferença cooperação em vez de competição, como norma para a vida externa do homem. E à medida que isto cresça e se estenda mais e mais, os homens do mundo darão estes passos antecipadamente. Porém deve ser com um impulso vigoroso, não como o passageiro sentimento de compaixão que vos leva a desprender-vos do supérfluo, a fim de dar a uma boa causa ou a alguma família desgraçada aquilo que nunca haveis de necessitar, e não prescindis de certos luxos do que tendes para que outros atendam às necessidades da vida. Muito mais do que isso se pede de vós, os que vos dirigis para a entrada na Senda!
Deveis dar-vos a vós mesmos e não o que possuis, pois nisto há imensa diferença. Deveis sentir a tristeza dos outros como sentis a vossa própria dor, deveis sentir a dor dos demais como a sentis quando ela retalha vosso coração. Deveis sentir-vos aguilhoados por um irresistível e intenso desejo de ação, que vos impulsione ao longo da Senda do Serviço, de modo que não possais recusar nem negar-vos a seguí-la. Entre vós encontrais os que são assim seres que não descansam. Isso não é fazer sacrifícios; está muito aquém deles. As coisas que o mundo chama sacrifícios constituem suas delícias; eles gozam dando-se a si mesmos; é apenas um sacrifício no sentido de que a vida espiritual está sendo consagrada aos demais; porém isto é gozo, não tristeza; delicia, não sofrimento; é espontaneidade, quase como uma necessidade da vida.
É neles que se encontra esta paixão por servir; que vedes essa complacência de renunciar a tudo para que outros possam ser mais felizes; que vedes pessoas pensando sempre no que podem fazer para ajudar ou o que podem achar para servir os que estão próximos deles, aos quais possam prestar ajuda, seja no círculo familiar, seja no mais amplo da vida pública. Mas deve ser constante e resoluto o propósito de ceder o que se possa em proveito dos demais. Neles tendes o espírito interno, que só vive para dar-se e que encontra a sua satisfação no Serviço do homem.
Aí se encontra, pois, o primeiro grande passo. Quem quer que vejais fazendo isso está se aproximando da Senda, por mais que desta nunca tenha ouvido falar. Está se encaminhando para os Mestres, embora não saiba que existem. Há ainda alguns que estão no crepúsculo da incredulidade na vida espiritual, e se acham mais próximos da entrada na Senda do que muitos que se chamam religiosos; isto é, que conhecem teoria da religião, porém não a seguem na prática. E aí vedes uma coisa verdadeiramente meritória do ensinamento que oferece a análise de uma fase do materialismo que nele não há absolutamente recompensa, não se fala de gozos no céu, não se fala de que “quem tem piedade do pobre empresta ao Senhor, e que àquele que empresta lhe será pago”.
O incrédulo altruísta se sacrifica pelo homem sem esperar recompensa das riquezas que prodigaliza, e nisto ele alcança a perfeição do sacrifício do amor a si mesmo, que muitos fervorosos cristãos, budistas e hindus os invejariam por sua profunda realização de vida verdadeira.
Annie Besant
08/11/1999