O HOMEM DO MUNDO
(1° parte)
Seus primeiros passos
Existe uma Senda que conduz ao que é geralmente conhecido como Iniciação, e através da Iniciação, à Perfeição do Homem. É uma Senda reconhecida em todas as grandes religiões, e suas características principais se acham descritas em termos similares em cada uma dessas religiões. Podeis vê-la nos ensinamentos católicos romanos, dividida em três partes:
(1)- A Senda da Purificação ou Purgação.
(2)- a Senda da Iluminação.
(3)- a Senda da União com o Divino. Vós a encontrais entre os muçulmanos, nos ensinamentos místicos do Sufi do Islam, onde são designados sob os Islam, onde são designados sob os nomes de o Caminho, a Verdade e a Vida.
Se avançais para o Oriente, ali a deparais também na grande religião do Budismo, dividida e subdividida, embora suas subdivisões possam ser classificadas segundo o esquema mais amplo. Está analogamente dividida do Hinduismo. Nestas duas grandes religiões, em que o estudo da psicologia, da mente humana e da constituição do homem tem desempenhado tão grande papel, podeis encontrar uma subdivisão mais definida(1)
Mas realmente não importa qual a religião a que vos dirigis; não importa que série particular de nomes escolhais como os mais adequados para vos atrair ou expressardes vossas próprias idéias. A Senda é apenas uma; suas subdivisões são sempre as mesmas. Desde tempos imemoriais essa Senda tem se estendido entre a vida do mundo e a vida do Divino. Ao longo de milhares de milhares de anos alguns de nossa raça a têm trilhado; durante milhares de milhares de anos ainda por vir, alguns de nossa raça a trilharão até o fim da história de nosso mundo, até a conclusão deste ciclo especial de período humano.
É a Senda que, de etapa em etapa, capacita o homem a cumprir o preceito de Cristo: “Sêde, pois, perfeitos como perfeito é vosso Pai do céu.” É a Senda de que o mesmo grande Instrutor declarou:
“Estreita é a porta e acanhado é o caminho que conduz à Vida, e poucos são os que o acham.”
Sei que em época posterior, quando a maioria dos homens se esquecera da existência da Senda, eles trocaram estas palavras verdadeiras por outras que são absolutamente falsas, as quais tornaram estreitos a porta e o caminho que conduzem para a vida celeste, e largo e amplo o caminho que conduz à condenação eterna. Isto é uma distorção do ensinamento oculto. É uma tergiversação, pois seguramente Ele, a quem seus fiéis chamam o Salvador do mundo, jamais poderia ter declarado que apenas poucas seriam as fileiras dos salvos e praticamente inumeráveis seriam as multidões dos perdidos.
Quando falamos da Senda, não nos situamos naquelas religiões exotéricas, que cuidam do céu e do inferno. A vida à qual a Senda conduz o peregrino, não é a vida dos gozos celestes, mas é a vida de que nos fala o quarto Evangelho, onde se lê:
“O conhecimento de Deus é vida eterna”; é uma vida que não se conta por idades sem limites, porém que significa uma mudança na atitude do homem; que não significa tempo, mas uma vida que está além do tempo; que não se calcula pelo nascimento e por de sois, mesmo que fossem numa vida imortal. Mas significa aquela perfeita serenidade, aquela unidade com Deus, em que o tempo é apenas um incidente passageiro da existência, e a vida do espírito é compreendida como uma sempre presente realidade.
Assim, pois, a Senda que vamos estudar nestes próximos dias, por estas breves e pobres descrições, é a curta, embora difícil, via pela qual o homem evoluciona mais rapidamente do que no curso natural da evolução humana. É a Senda pela qual, empregando um símile freqüentemente usado, ao invés de ir volteando uma montanha por uma sempre ascendente espiral, o homem sobe diretamente pela sua encosta, sem o preocuparem os penhascos e precipícios, nem deter-se ante as quebradas e abismos, pois sabe que nada pode perturbar o Eterno Espírito, e que nenhum obstáculo é mais potente do que a perseverança, que é onipotente porque sua fonte é a própria Onipotência.
Tal é, pois, a Senda que vós e eu vamos estudar, não pelo mero interesse do que é em verdade um assunto fascinador que encanta, sim, ao menos da parte de quem vos fala, e eu espero que também da parte de alguns, quando menos dos que me ouvem. É um estudo que nos leva a mudar de vida. É um estudo que nos leva à resolução de trilhar a Senda, de conhecê-la não apenas teoricamente, mas, para realização prática, e para entender algo dos Mistérios ocultos pelos quais o homem, sempre potencialmente divino, realiza sua divindade interna e chega. a ser perfeito para elevar-se e marcha na vanguarda da Humanidade.
Tal é o objetivo do nosso estudo, e com o fim de que seja prático, devemos aceitar, ao menos por agora, a existência de certos grandes fatos da Natureza. Não digo que nosso homem do mundo, ao dar seus primeiros passos para a Senda, necessite conhecer ou reconhecer estes fatos. Os fatos da Natureza não mudam nem com a nossa crença ou descrença. Esses fatos, quer os conheçamos ou não, continuam sendo fatos, e desde que nos achamos aqui no reino da Natureza, e sob a ordem da lei, o conhecimento dos fatos e o conhecimento da. lei não são essenciais para os passos que conduzem o homem à Senda. Basta que os fatos estejam ali, e que o homem, inconscientemente, permita que estes fatos influam em sua vida interior e exterior; basta que as leis existam, mesmo quando o homem não tenha conhecimento de sua existência.
A luz solar não deixa de nos aquecer por não conhecermos nada da constituição do sol. O fogo não deixa de nos queimar porque desconhecendo sua ignescência, introduzamos a mão em sua chama. É para a segurança da vida e progresso humanos que as leis da Natureza estão sempre operando e conduzindo-nos com elas, quer as conheçamos ou não. Mas, se as conhecemos, obtemos uma grande vantagem. Se as conhecemos, podemos cooperar com elas; porém não podemos cooperar enquanto estivermos escondidos na obscuridade da ignorância. Se conhecemos os fatos, podemos utilizá-los, porém isto não podemos fazer se desconhecemos sua existência. Conhecer é a diferença que há entre trabalhar na obscuridade e trabalhar na luz, e entender as leis da Natureza é ganhar o poder de acelerar sua evolução, utilizando todas as leis que abreviam nosso crescimento e evitando a interferência daquelas que podem retardá-lo.
Bem, um dos grandes fatos que envolvem a inteira possibilidade de uma Senda da perfeição humana e que eu devo dar como admitido durante estas conferências – pois o tomá-lo como tema para discussão nos levaria muito longe de nosso objetivo – é um fato fundamental da Natureza: o fato da Reencarnação. Esta significa o crescimento gradual do homem através de muitas vidas, através de muitas experiências neste mundo intermediário e também no mundo chamado céu. Uma vida só seria demasiado breve para pôr o homem em condições de avançar da imperfeição à perfeição, a menos que tivesse muitas oportunidades ao longo do extenso caminho que o conduz às alturas. E nosso homem do mundo, que quer dar os primeiros passos, que está pronto para dá-los, deve ter atrás de si um longo curso de evolução humana, no qual tenha aprendido a escolher o bem e a rejeitar o mal, no qual sua mente tenha evoluído e se adestrado, e seu caráter tenha sido elevado desde o estado de ignorância e imoralidade até o ponto em que se encontra hoje o homem civilizado.
O fato da reencarnação está, pois, pressuposto, porque a ninguém seria possível trilhar a totalidade da Senda ou conhecer a perfeição divina, nos limites de uma só vida. Mas nosso homem do mundo não necessita conhecer a reencarnação; Ele a conhece em sua memória espiritual, por mais que seu cérebro físico não possa ainda tê-la reconhecido; e o seu passado, que é um fato, o impulsionará para diante até que o espírito e o cérebro estejam em plena comunicação e o que seja conhecido pelo homem interno chegue a ser conhecido pela mente concreta.
O próximo grande fato necessário e dado por admitido pode ver-se numa só de nossas Escrituras:
“Aquilo que o homem semear, isso também colherá”.
Esta é a lei da causalidade, a lei de ação e reação, pela qual a Natureza traz inevitavelmente ao homem os resultados daquilo que pensou, que desejou e que executou.
O fato é que existe uma Senda e que outros homens a têm trilhado antes de nós; que é possível uma evolução mais rápida; que suas leis podem ser conhecidas,suas condições compreendidas, seus degraus pisados, e que no final desta Senda se encontram Aqueles que já foram homens do mundo, porém agora são os Guardiães desse mesmo mundo, os Irmãos maiores de nossa raça, os Mestres e os Profetas do passado, ascendendo por graus de cada vez mais deslumbrante luz desde o final da Senda para o homem até o mais alto governo do astro sob que vivemos. Pobre seria nossa esperança se ninguém antes de nós tivesse pousado os pés nesse caminho, se ninguém tivesse percorrido a Senda. Mas aqueles que no passado vieram como Instrutores tinham já realizado no passado sua admirável peregrinação; aqueles que hoje honramos como Mestres e que se acham em contato com o nosso mundo, onde podem achar discípulos e guiá-los em sua marcha pela Senda.
Os grandes fatos existentes na Natureza, sejam ou não reconhecidos, nos quais existe a possibilidade de trilhar a senda, são: a Reencarnação, a lei do Karma, a existência da Senda e a existência dos Mestres. Esses são os quatro fatos que devemos deixar pressupostos, não porque não possam ser demonstrados um após outro, senão para os fins destas conferências. Damo-los por admitidos, porque sem eles estas conferências seriam impossíveis. Que passos tem, pois, que dar o nosso homem do mundo, ou que passos está dando, se realmente está se aproximando da entrada no princípio da Senda?
Já disse que o que ele precisa conhecer são as quatro grandes verdades que já mencionei; não precisa entendê-las nem reconhecê-las. Isto é a parte do lado feliz deste assunto, ao qual devem estar – mais ainda, estarão – submetidos muitos de vós que ainda não conhecem a verdade destas coisas, porém que, não obstante, no curso da evolução avançam até a entrada na Senda. E por mais que no futuro a conheçam mais plenamente, ainda que inconscientemente, nem por isso a evolução deixa de ser um fato.
E o que eu desejo esta manhã é mostrar esses passos para que possais considerar vossas próprias vidas e cada qual decidir por si próprio se seu rosto está ou não voltado para a direção da Senda, pois há muitos entre vós que vão diretos para ela, embora não o saibam, enquanto que há alguns que, tendo estudado e entendido, se encontram deliberadamente desviando o rosto dessa direção.
Mudar vossa evolução de inconsciente em consciente, pôr-vos em condições de conhecer-vos a vós mesmos e o lugar onde vos encontrais, tal é o tema da primeira destas conferências, de tal modo. que aqueles de vós que crêem na Senda, possam saber como viver, e que os que, sem o saber, estão se aproximando dela, possam obter facilmente sua recompensa.
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Annie Besant
08/11/1999