A
meditação andando tornou-se uma prática característica do Budismo Vietnamita,
tendo suas raízes na concentração Theravada e no andar formal entre períodos de
meditação sentada. O autor apresentou-a brevemente aos leitores ocidentais em
seu livro “Para viver em paz – o milagre da mente alerta” {Editora: Vozes,
1986}. Agora neste livro o autor aprofunda o método de meditação andando, uma
prática que leva as atividades do corpo, do cérebro, da vontade e do sentimento
a um equilíbrio harmônico e à paz interior.
O
Vietnã é o único país onde o Budismo Mahayana e Theravada floresceram, lado a
lado, em compreensão e tolerância mútuas. Em outras circunstâncias, em outro
cenário cultural, duas modalidades tão divergentes da mesma religião teriam
permanecido totalmente separadas. O caráter nacional do Vietnã prestou-se
naturalmente não só a uma combinação de mantos de cor de açafrão dos monges
Theravada e de cor marrom dos monges Mahayana, nos lugares públicos, mas também
a um sincretismo de ensinamentos que, de outra forma, provavelmente não se teria
desenvolvido.
A meditação andando é um bom exemplo dessa síntese. Tendo suas raízes na concentração Theravada e no andar formal entre períodos de meditação, próprio da tradição Mahayana, tornou-se uma prática característica do Budismo Vietnamita.
Thich Nhat Hanh é conhecido, desde 1966, como porta-voz da reconciliação no
Vietnã, como poeta e como mestre Zen. No Ocidente, fomos apresentados a ele
quando percorria a América do Norte e a Europa dando palestras sob o patrocínio
da Fellowship of Reconciliation. Publicou, logo em seguida, Lotus in a Sea of
Fire, sobre o duro trabalho de seu povo; um estudo sobre os Koans.* Zen, na
perspectiva vietnamita, sob o título Zen Keys; e alguns volumes de poesias. Em
1970, foi chefe da delegação Budista na Conferência de Paz, em Paris.
Desde então, vive sossegado na França, ensinando em sua Aldeia das Ameixeiras
nos retiros de verão, tecendo ligações entre refugiados e levantando fundos para
alimentação das crianças carentes do Terceiro Mundo.
Em 1983, percorreu novamente os Estados Unidos, sob o patrocínio da Budhist Peace Fellowship, afiliada da Fellowship of Reconciliation. Uma vez por ano vem orientar retiros nos centros Budistas americanos, e foi em conjugação com essa visita que a FOR lançou esta publicação.
A
mensagem especial de Thich Nhat Hanh é o “Budismo engajado”, uma mensagem que
emergiu da agonia de seu país sob o domínio do colonialismo estrangeiro. Não se
trata de engajamento político, mas de envolvimento ativo com o sofrimento.
Este engajamento e envolvimento começam com o nosso próprio eu, com um entendimento do que está acontecendo em nosso interior e também no nosso exterior, no mundo. O processo básico para esse entendimento é a meditação andando, uma prática que leva as atividades do corpo, do cérebro, da vontade e do sentimento a um equilíbrio harmônico.
Buda não permaneceu debaixo da árvore Bodhi após a grande Iluminação.
Levantou-se e andou pelas estradas poeirentas do Vale do Ganges durante o resto
de sua vida, ensinando o caminho da sabedoria e da compaixão. Thich Nhat Hanh
não cuida apenas de suas ameixeiras em sua Aldeia, mas leva a essência do seu
Budismo Engajado a todos os povos preocupados com a paz e a proteção do meio
ambiente e que procuram uma base firme para o seu trabalho.
Koan *:
Perguntas paradoxais que os mestres Zen, da linhagem Rinzai, apresentam aos seus
discípulos com o objetivo de fazê-los enxergar além das fronteiras do
raciocínio.
Robert Aitken
Mestre do Diamond Sangha Zen Center, do Havaí
Sobre o Autor:
Thich Nhat Hanh, mestre Zen e poeta,
tem transmitido o Budismo tanto a noviços quanto a leigos, não só no Vietnã, seu
país, e no seu exílio na França, como também nos diferentes países em que, como
figura de proa, é chamado a comparecer nas conferências de paz.
Quando ainda no Vietnã, exerceu o principal papel no “Budismo engajado” –
renovação religiosa de qual foram gerados inúmeros projetos, combinando ajuda às
vítimas e oposição não-violenta à guerra. Seu trabalho deu origem à Escola da
Juventude para Serviços Sociais no Vietnã e à Universidade Van Hanh. “Budismo
Engajado”, como era conhecido esse movimento, segundo palavras do próprio Thich
Nhat Hanh: “é um termo redundante, já que Budismo significa estar consciente,
estar desperto para o que está acontecendo no seu próprio corpo, sentimentos,
mente e mundo que o cerca. Se você está desperto, não pode agir de outra forma
senão compassivamente para aliviar o sofrimento que vê ao redor. O Budismo é,
portanto, implicitamente engajado. Se não é engajado, não é Budismo”.
Em
1966, Thich Nhat Hanh desembarcou nos Estados Unidos para falar em defesa da paz
de seu povo. Proibido de reentrar no Vietnã desde então, exilou-se na França
onde, até hoje, junto às atividades de mestre Zen-Budista, continua seu trabalho
em defesa da paz e
proteção às vitimas de seu país, através da
Vietnamese Buddhist Peace Delegation e da Fellowship of Reconciliation. Em 1968
foi indicado por Martin Luther King para o Prêmio Nobel da Paz.
Meditação andando: Guia para a paz interior
1.
Você é capaz
Meditação andando é praticar meditação enquanto
caminhamos. Esta prática pode lhe trazer paz e alegria. Dê passos curtos em
completa descontração; vá devagar, com um sorriso nos lábios e o coração aberto
para uma experiência de paz. Você poderá sentir-se mais à vontade consigo mesmo.
Seus passos poderão ser os de pessoa mais saudável e segura deste mundo.
Todas as aflições e confusões podem desaparecer
enquanto você caminha. Se pretende alcançar paz de espírito, auto libertação,
aprenda a andar dessa forma. Não é difícil. Você é capaz de faze-lo. Qualquer
pessoa que tenha certo grau de consciência e uma real intenção de ser feliz pode
fazê-lo.
2. Ir sem chegar
Na nossa vida diária, somos normalmente
pressionados a ir em frente. Temos que ir depressa. Raramente nos perguntamos
para onde devemos ir com tanta pressa.
Quando você pratica meditação andando você sai a
passeio. Não tem objetivo nem direção no espaço e tempo. O objetivo da meditação
andando é a própria meditação andando. Importante é o ir, não o chegar. A
meditação andando não é um meio para um fim, ela é um fim. Cada passo é vida,
cada passo é paz e alegria. Por isso não há motivo para se apressar. Por isso é
que seguimos devagar. Parece que vamos para frente, mas não estamos indo a lugar
nenhum; não estamos sendo movidos por nenhum objetivo. Por isso sorrimos
enquanto caminhamos.
3.
Passos despreocupados
No
dia-a-dia, nossos passos estão sempre carregados de ansiedade e medo. A própria
vida parece uma cadeia de inseguranças e, por isso, nossos passos perdem sua
natural desenvoltura.
Nossa terra é realmente bela ! Há tanta graça e
encanto nos caminhos e estradas da terra ! Sabe você quantos caminhos de chão
batido existem, ladeados de bambus contornando os aromáticos campos de arroz ?
Sabe você quantas trilhas existem, cobertas de folhas coloridas, oferecendo
sombra e frescor, dentro das matas ? Isso tudo está à nossa disposição e, no
entanto, nós não aproveitamos, porque nossos corações não estão livres de
preocupações, e nossos passos não são dados à vontade.
Meditação andando é aprender a caminhar outra vez, de forma despreocupada. Quando você tinha em torno de um ano de idade, você começou a andar com passos vacilantes. Agora, praticando a meditação, você está aprendendo a andar de novo. Contudo, após algumas semanas de treinamento você será capaz de andar com firmeza, paz e conforto. Estou escrevendo estas linhas para ajudá-lo a fazer isto. Desejo-lhe sucesso.
4.
Atirando fora a carga de preocupações
Se eu tivesse os olhos de Buda e pudesse ver
através de todas as coisas, poderia detectar as marcas das suas mágoas e
preocupações deixadas no chão por cada um de seus passos, da mesma forma que o
cientista detecta ínfimos seres vivos numa simples gota d’água, usando o
microscópio. Caminhe de tal forma que seus passos imprimam sobre a terra apenas
as marcas da liberdade, alegria e serenidade. Para isso você tem que aprender a
soltar, a atirar fora suas mágoas e preocupações. Esse é o segredo da meditação
andando.
5.
Caminhando sobre a Terra Pura
Se eu tivesse poderes sobrenaturais, poderia
levá-lo para uma visita à Terra Pura* de Buda Amitabha**, ou até o Reino de
Deus, se você for cristão. Estou certo de que tudo lá seria lindo, limpo e
agradável. Mas como seriam seus passos lá ? Você tem certeza de que seus passos
não demonstrariam as preocupações e mágoas que trouxe deste mundo, desta Samsara***
?
Se, ao pisar a Terra Pura, você estiver carregando
suas mágoas e preocupações, você a tornará menos pura. Para merecer a Terra
Pura, você tem que ser capaz de dar seus passos tranqüilamente, livre de
ansiedade, aqui e agora, nesta Samsárica terra.
*Terra Pura: Uma
expressão metafórica para o mundo da verdade e pureza revelado pela Iluminação.
A doutrina central das seitas do Budismo da Terra Pura é: todos os que evocam o
nome de Amida com sinceridade e confiança na graça salvadora de um voto
renascerão em uma Terra Pura de paz e de bem-aventurança.
**Amitabha: Buda da
infinita luz e/ou Vida. Figura central do Budismo da Terra Pura, largamente
reverenciado por seus praticantes.
***Samsara: O mundo da
relatividade e transformação: porque todos os fenômenos, incluindo nossos
pensamentos e sentimentos, passam incessantemente de acordo com a lei da
causalidade. Samsara, ou “nascimento” e “morte”, pode ser comparado com as ondas
do oceano. O crescer de uma onda é um “nascimento” e o quebrar desta onda, uma
“morte”.
6.
Terra Pura é esta em que vivemos
Estou certo de não ofender a Buda ou a Deus se
contar um segredo: se você conseguir dar passos cheios de paz e livres de
ansiedade enquanto caminha sobre esta terra, não haverá necessidade de você ir a
Terra Pura ou para o Reino de Deus.
Por uma simples razão: tanto Samsara como a Terra
Pura são criados pela mente. Quando você está em paz, livre e alegre, Samsara se
transforma em Terra Pura e você não precisa sair de onde está.
E, então, mesmo que eu tivesse poderes
sobrenaturais, não precisaria usá-los.
(Click aqui para ler a 2° parte do Texto)
Thich Nhat Hanh
22/08/2003