Lições da arte
2° parte
Um certo homem de
letras, professor, preocupa-se duplamente com palavras e alunos; corrige
sentenças, domina pontuações. Um dia, em aula, discorria sobre Emily Dickinson,
quando de repente uma palidez e uma expressão de espanto invadiram seu rosto,
como se pela primeira vez tivesse visto algo, entendido qualquer coisa
que jamais compreendera. Era a visão do Ferido, a secreta implosão, que não fez
barulho mas que ocorre em algum lugar profundo e invisível. Os alunos não podiam
perceber que naquele momento o estômago do professor tinha-se rompido e que,
embora continuasse a falar, os fluidos ali contidos penetravam na cavidade
peritonial como uma horda de saqueadores anões. Do quadro negro até a cátedra,
cambaleou e, apoiando-se nela, com o rosto voltado para a parede, vomitou sangue
em grandes golfadas, talvez por julgar que, tendo dado aos alunos o último
alento de seu espírito, devia ofertar-lhes agora seus fluidos e células.
Ainda
a tempo de ser salvo, foi levado à sala de operações, aquele homem a quem eu
conhecia e com quem me identificara através da poesia.
Tomei-o em meus braços, deitei-o,
abri-o e localizei a causa da hemorragia. Suturei a veia rompida, mediquei-o e,
mais tarde, lhe disse: — Agora o senhor está inteiro.
— Pouco adiantou,
pois logo entrou em colapso e não pude, mesmo com todos os recursos, dar-lhe
novo alento. Da sala de cirurgia foi levado à Unidade de Cuidados Intensivos.
Uma porta eletrônica barrou o acesso de seus familiares e alunos, pois ele
entrara num novo estado de ser, naquela restrita antecâmara, onde raros tinham
acesso.
Por três semanas ali
ficou, penetrado por tubos de diversos calibres em todos os seus orifícios,
puncturado, irrigado, dializado, insuflado, bombeado e drenado, sentindo cada
picada, cada pressão.
No quarto
move-se uma mulher de branco. Carinhosamente mede a fluidez da urina de hora em
hora. Com mão familiar toma-lhe o pulso, leva-lhe a máscara de oxigênio às
narinas e conta-lhe as pulsações com a unção de quem desfia as contas de um
rosário. Seu coração aflito registra o lento declínio, até que meneia a cabeça
num gesto de desesperança. A seguir, empreende outra rotina,
e suspirando,
desliga toda fria aparelhagem, tira o lençol e banha suavemente aquele corpo.
O homem de letras jamais tomou
conhecimento da mulher. Em luta com a morte, dificilmente notaria sua presença.
Porém, esta enfermeira é como uma nova esposa em seu leito de morte. Estavam
intimamente unidos, um dependia do outro, amavam-se. Era um casamento, embora
não tivessem um passado compartilhado. Mas o macabro e intenso presente que os
unira tinha mais força que qualquer juramento. O homem jamais saberá se a mão
que lhe tirou o último alento cumpriu um gesto de bondade ou de maldade.
Encontro-me de pé ao lado do leito
onde jaz uma moça com o rosto recém-operado, a boca retorcida num
rictus tragicômico.
Um imperceptível nervo facial que comanda o músculo da boca lhe fora seccionado.
Assim permaneceria para sempre. Como cirurgião, eu atuara com atenção extrema
para não alterar as linhas daquele rosto.
— Prometo não deformá-la — eu lhe dissera. — Todavia, para remover o tumor existente fui obrigado a seccionar aquele nervo. O marido, também jovem, está junto ao leito, ambos tão espiritualmente unidos, como se eu não existisse.
— Quem serão? —
perguntei a mim mesmo. — Quem será ele e quem será essa boca torta que eu
fabriquei e que agora se miravam e se tocavam com tanta ternura mesclada de
sensualidade? — A moça, então, indagou:
— Minha boca ficará
torta para sempre?
— Sim — respondi —
ficará, devido ao nervo seccionado.
— Em silêncio, ela
aquiesceu com a cabeça e seu jovem amado afirmou:
— Gosto como está,
lhe deu personalidade.
De repente, percebi
quem era ele e baixei os olhos. Ninguém é bastante corajoso para encarar um
deus. Com naturalidade, ele curvou-se e beijou aquela boca retorcida, e pude
observar com que delicadeza movia os lábios para ajustá-los aos dela, a fim de
assegurar-lhe que nada mudara. Lembrei-me que na antiga Grécia, os deuses às
vezes apareciam como mortais e, em silêncio, ali os deixei, inebriados.
Longe da sala de operações, o cirurgião aprende que
algumas mortes são inapeláveis, e que isto não contradiz seus
propósitos.
Perceber a tragédia é
despojá-la de sua verdade e beleza. É qualquer coisa que vai além da fria
competência ou da precisão ao cortar e suturar. Cedo, ele aprenderá que o amor
pode florescer no mais estéril deserto, talvez até numa Unidade de Cuidados
Intensivos.
Trata-se de recordações muito
antigas e, como tais, fenecem e se vão. Quando o paciente vem a ser o cirurgião,
ele cuida apenas da alma.
Não sei quando compreendi que é precisamente este inferno onde vaga nossa vida que nos oferece a energia e a possibilidade de cuidarmos uns dos outros. O cirurgião não salta do útero materno com a compaixão e o amor a envolvê-lo, como os úmidos humores que acompanham o nascimento. Tais sentimentos tardam a florescer; não decorrem de um ato de graça. São a soma de inúmeras feridas que ele fechou, de incisões que fez, de todas as chagas e lesões que tocou para curar.
De
início, esses sentimentos não passam do sussurro de muitas bocas, que aos poucos
se avoluma, emana da carne e, por fim, é um puro apelo, um som exclusivo, a
proclamar que, além da ressonância entre o
paciente e o homem debruçado sobre
ele, deve existir um estreito vínculo, gerador daquilo que os religiosos chamam
de Amor.
Richard Selzer
10/05/1999
Extraído do livro: Lições Mortais /Editora Difel /1978