Lições da arte
1° parte
Confiante, o cirurgião aproxima-se da mesa de operações. Foi, por certo, treinado com rigor e já esteve muitas vezes frente a ela. Mas o abdome que se lhe depara esta manhã, pintado de mercúrio-cromo e coberto com um lençol verde, é um tanto diferente dos Outros que em diversas ocasiões lhe foram apresentados. É comum e familiar demais para ser manejado, pensa ele. Observa como sobe e desce ao ritmo regular da anestesia. A confiança sobrepõe-se à duvida; perscruta seus conhecimentos, percorre conhecidos caminhos.
Com tranqüila
arrogância, o cirurgião curva-se e pratica a incisão, na busca segura de um
órgão que sabe estar exatamente ali.
Naquela manhã, quando o cirurgião
alargou os bordos da incisão, não encontrou o duto no lugar onde sabia
que estava. Deparava-se com uma massa esclerosada, entremeada de veias de imensa
fragilidade. Pareciam querer romper-se a um simples olhar e desintegrar-se ao
contato do ar ambiente, O sangue fluiu pelo poço da ferida, embebeu as
reentrâncias da massa escura, obstruiu o caminho desprotegido. O cirurgião
observa tudo isso e percebe que o vento feroz da inflamação varrera o lugar e
soterrara os canais e dutos que ele procurava. Era uma terra de ninguém, um
pantanal com árvores retorcidas. O cirurgião
procura remover o sangue, mas este borbulha em
novas e sucessivas golfadas.
Tem os olhos fartos
de tanto vermelho, aquele quadro o horroriza. Tateia de leve com as pontas dos
dedos, intestino a dentro, toca em sulcos e saliências, testa resistências, em
busca do mais insignificante espaço que aceitasse sua pressão e lhe
possibilitasse continuar pesquisando. Mas onde firmar-se naquela terra
destroçada e desconhecida? Com olhar vigilante, ele examina os mínimos detalhes
em busca de um sinal, de uma insignificante mudança na coloração, que lhe
mostrasse a linha de ação naquele caos. Em vão.
Por fim, com cuidado extremo, avança
milímetro por milímetro, consciente de que o menor toque em falso poderia
provocar a avalanche. Ali está ele, sozinho. Não importa os que,
anteriormente, penetraram em cratera semelhante.
Foi
ele quem assomou e depois adentrou-se por tão medonha região e, agora, sente
medo, pois só ele conhece o pior daqueles intestinos irreparavelmente
desfigurados. Seus assistentes, silenciosos, tudo acompanham com os olhos.
Quase num sussurro,
mal movendo os lábios, ele diz:
— O principal dutor
da bílis está aderido ao pâncreas, misturou-se a essa.... sopa.
Os internos e
estudantes precisam esforçar-se para ouvi-lo, mas invejam-lhe a audácia e a
destreza. Mal sabem que ele também os inveja por serem meros espectadores de sua
ansiedade.
— Bombeiem o sangue,
rápido, mais rápido! Jesus, vamos perdê-lo!
Com as mãos mergulhadas no corpo do paciente,
insiste em comprimir o tampão de gaze para bloquear a veia rompida, enquanto
acompanha a transfusão do sangue que flui em silêncio dos frascos sucessivos.
Sabe que é um desperdício, que aquele sangue transfundido seria mais útil se
empregado em outro
paciente.
Por fim, o cirurgião sente que a hemorragia como que explode sob sua mão e nota que a maquina de sucção esvaziara o campo operatório, dando-lhe visão para chegar ao ponto do qual fora desviado.Removeu com cuidado o tampão com que procurara estancar a hemorragia, retirou os coágulos de sangue e procurou a brecha na grande veia. Mas, a seguir, o vulto do outro lado da mesa de operações disse: — Não ouço mais as batidas do coração; cardiograma em linha reta. — Instantes depois, a contragosto, acrescentou: — O homem morreu.
Naquele momento, em toda a cidade
ninguém sofria mais que o cirurgião. Ele acabara de descobrir, surpreso, o
sentido básico de seus esforços: a morte.
Coréia, 1955.
A mão que, de leve,
me tocou o rosto, me acordou.
— Doutor, doutor, — implorava Iang,
meu assistente coreano. Abri os
olhos a
contragosto. Acordar àquela hora era quase um convite ao desespero.
— Menino chama
portão, muito aflito. Irmão menino doente muito barriga. Doutor vai?
Oh, meu Deus! —
pensei — Tomara que não seja apendicite. Quantas operações ainda terei de fazer
sem anestesia? Espero que não sejam muitas. Não posso mais suportar as bocas
amordaçadas e os corpos trêmulos e inermes imobilizados na mesa por voltas e
voltas de esparadrapo largo, exceto à altura da barriga para permitir a incisão.
Não suporto mais ver as juntas dos dedos quando embranquecem ao agarrarem o
‘bastão da coragem” que lhes é dado, no momento decisivo, por uma “mamasan”. Os
olhos que se viram e se reviram nas órbitas paralisam meus gestos, entorpecem
meus dedos.
— Não poderiam
trazê-lo?
—
Não, doutor; muito, muito doente. É
meia-noite. Procuro despertar por completo observando o nosso pequeno guia.
Teria mais ou menos dez anos de idade, era raquítico e usava uma argola que
prendia o lábio superior à base do nariz, o que lhe dava um
aspecto leporino.
Éramos quatro na
ambulância: Iang, Galloway o motorista, o menino e eu. O braço nu e esquelético
aponta o caminho montanha acima, enquanto a estrada se desenrola estreita e
sinuosa entre os penhascos.
Galloway esclareceu: — Subiremos pelo leito do córrego, que ainda está seco.
Não me interessei pelas decisões
tomadas, pois a ambulância obedecia ao comando do guia como um enorme animal
amestrado. Quem julgaria que tão raquítico menino tivesse força para dominar tal
monstro? Com cuidado, logo alcançamos o leito seco do córrego.
Ao longe, piscava uma
tocha, balançada de um lado para o outro como a cabeça de um papagaio. Era um
sinal.
— As chuvas começarão
hoje, — disse Iang.
— Hoje?
— Hoje, não; agora —
retrucou Galloway.
Um assobio e uma
rajada de vento atingiu o pára-brisa e o teto da ambulância e eis-nos envolvidos
pela chuva. Um farolete piscou languidamente como se estivesse nos namorando.
Havia tiroteio e desespero na Coréia.
Nossos pés
enterravam-se na lama em que se transformavam os arrozais. Carregávamos encerado
e maca. Enfim, chegamos.
Ajoelho-me a seu lado
e sinto o calor da febre que o devora. As costelas flutuantes arcam-se sobre a
barriga, tornando-a tensa e brilhante, semeada de bolhas purulentas. Toco de
leve aquele ventre, o que me ajuda a ficar mais calmo. Meus dedos sentem a
infecção ali entrincheirada, mas naquele instante não queria pensar nela.
Trazê-la para o exterior apresentava o risco de abrir uma comporta.
O abdome está rígido, em defensiva:
defénse musculaire,
dizem os franceses com
exatidão. O mais leve toque causa dores terríveis e o menino levanta as mãos
translúcidas em sinal de protesto. Peritonite. Sobre seus lábios entreabertos
flutua uma única bolha que se expandia e se contraía ao sopro da respiração.
Dali brotava a alma.
Lá fora, a chuva
furiosa aumentava, pingava do teto e alagava tudo. Deitamos o doente na maca,
cobrindo-o com o encerado e transpusemos a porta entreaberta.
— Não corram —
ordenei. — Não o sacudam.
Diluídos pela chuva, os dois homens
e a maca desapareceram. Com uma reverência, despedi-me da família.
Tudo neles era silêncio e
impassibilidade a encobrir a angústia. A mãe acocorou-se devagar, com o suor
perlando-lhe o rosto, enquanto um bebê amarrado às suas costas dormia com a
cabecinha pendida. De pé, junto à porta, o pai perscrutava a chuva. Seu hálito
despendia o cheiro forte e rico do kimchi,
o prato nacional da
Coréia. Preparei-me e enfrentei o dilúvio. Uma vez na ambulância, exclamei:
— Os baques vão
machucá-lo. — Recomendação inútil, que o motorista não poderia atender.
O
leito seco do córrego transformara-se numa torrente caudalosa e revolta. Amanhã
os arrozais à jusante estarão alagados. Prosseguíamos dentro da torrente, mesmo
porque não havia outro caminho. Ouvíamos o estertorar do enfermo, o “hic” ao fim
de cada respiração, enquanto Iang, debruçado sobre a maca, cobria-o com o corpo.
Cada vez mais impetuosa, a torrente
dava rabanadas, como se estivesse povoada por peixes gigantescos. Emudecidos
pela perspectiva do desastre iminente, ensopados até os ossos, percebemos que a
ambulância pendia para um
lado.
Empurrei Galloway com
os pés, abri a porta, trepei para o teto do veículo e gritei:
— Passe-o para mim!
Sem nada mais sob a camisola rala, o pequeno
vulto branco e gemente me foi alçado. Com o enfermo nos braços, permaneço de pé
exatamente sobre o emblema da Cruz Vermelha. Os demais também sobem e ali
ficamos, agarrados uns aos outros, enquanto a água invadia o interior da
ambulância e a arrastava. Num solavanco mais forte, o menino escapou dos meus
braços. Corno numa tomada de cena em câmara lenta, elevou-se no ar, inflado pela
camisa. Ei-lo suspenso em meio à tempestade, com os seus braços raquíticos
erguidos, qual um peixe listrado de branco, a nadar em graciosas evoluções,
para, afinal, cair. Quando o alcançamos, estava de costas, com a boca aberta,
por onde entrava e saía a água tingida de sangue que manava de sua cabeça
partida. Durante toda a noite
carregamos de volta o pequeno cadáver, até que na manhã seguinte, o entregamos a
seus pais. Enquanto Iang lhes narrava o desastre, nós não tínhamos coragem de
nos encarar.
(Click aqui para ler o final do Texto)
Richard Selzer
10/05/1999
Extraído do livro: Lições Mortais /Editora Difel /1978