O cirurgião como sacerdote

2° parte

 

Depois disso, voltei a vê-lo muitas vezes na lanchonete. Joe poderia parecer, tudo, menos um repousante jardim de milagres. Ao contrário, parecia-se mais com o Éden após a Queda, desprovido da beleza que lhe emprestavam as primeiras criaturas. Notava-lhe uma espécie de desleixo, uma flacidez muscular. A cura tê-lo-ia despojado da nobreza que a doença anteriormente lhe emprestara? Talvez fosse engano meu e a única mudança em Joe fosse aquele sorriso que parecia caracterizar uma cumplicidade entre nós. Enquanto mexo meu café, pergunto-me se tal homem teria, de fato, sentido em sua calva o roçagar de milagrosas asas. Ah! Parece que, muitas vezes, a glória se vai quando as feridas cicatrizam. Assim sendo, só os santos florescem no martírio e vão-se tomando cada vez menos carne sofredora e cada vez mais imponderáveis fantasmas.

 

Muitos anos já haviam decorrido entre a primeira vez em que vira um cérebro vivo e o de Joe. No entanto, ainda hoje a dúvida me assalta: poderia esse encoscorado pão italiano ser o poderoso cérebro? Esse mesmo cérebro onde a Razão e a Loucura empreendem uma perpétua corrida que, muitas vezes, termina empatada? Mas o olhar ilude. O que parece ser um volumoso caracol apenas enrodilhado no interior de sua concha, vive, de fato, integrado ao perpétuo movimento e à agitação de incontáveis centelhas elétricas.

 

Bem. Voltemos à sala de operações.

 

Como cortar uma massa menos consistente que a de um queijo fresco e não perder nenhuma partícula? Pois, do contrário, perder-se-ia uma década de recordações e de desejos ali contidos e que o bisturi destruiria.

 

Grande parte dessa tarefa está solucionada pela cauterização dos bordos da peça a ser removida. A fina corrente coagula as veias em um determinado ponto, depois em outro e assim por diante, até que certa área esteja delimitada. Dentro dela será feita a incisão. Mas como serrar um pudim? O sangue vai sendo absorvido por pequenos tampões de gaze chamados “pastéis”. Através deles passa-se um longo fio preto para evitar que um deles se infiltre numa insignificante fissura ou vá aderir a um centro venoso como uma estrela-do-mar a um recife de coral. Além disso, um pastel esquecido dentro do cérebro não faz bem à saúde nem intensifica a inteligência. Semelhante ao cadáver de um soldado, ele deve ser removido do campo de batalha e sepultado para não empestar a terra onde se travou a luta. Também assim se procede com os pastéis: são puxados pelo fio preto e contados para conferir.

 

Ouça, o comando do neurocirurgião: “pastel, serra, sucção, corte”, a seguir, “sucção, corte, pastel, serra”. Tudo simples e ritmado.

 

O cirurgião conhece bem o terreno do cérebro, porém ainda não sabe de que se compõe o pensamento. O homem cresceu ambicionando mais e mais a conquista do mistério, que iria afinal dominar e subjugar pela eletrônica. Construiria computadores sofisticadíssimos para rivalizar e mesmo superar o próprio cérebro humano. Domaria o touro miúra e o jungiria ao arado ao implantar eletrodos em seu cérebro, na parte onde se aloja a fúria — o centro da violência como é chamado. Ao pressionar-se um botão, o furioso touro estaca a meio da carga e vem mansamente lamber a mão do toureiro. A fúria transforma-se em doce submissão.

 

Cirurgiões há, que com seus bisturis seccionam a insanidade para suavizá-la. Eis o cirurgião praticando uma vilania. São os que não têm coração bastante para conhecer o cérebro.

 

A última vez que vi um cérebro foi numa sala de emergência. Limpei-o dos ombros de uma jovem para tornar-lhe o corpo mais apresentável aos olhos de seu pai. Estamos lado a lado, como dois irmãos. De repente, o silêncio abate-se sobre nós. O terrível silêncio da descoberta. Num relancear de olhos, percebo que ainda restou massa encefálica sobre os ombros da morta, projetados do crânio que se esmigalhara como uma noz. Ali estava, sem dúvida, o cerne, a seiva da vida, por assim dizer. Era o seu cérebro! Vi os conhecimentos, o saber, a inteligência, colarem-se à sua pele. Admirado, vi o fragmento úmido que fora arremessado com ímpeto, ressecando-se agora sob a forte luz da sala de emergência. Sua carga de energia e de pensamentos volatilizava-se e misturava-se a meus pensamentos, antes de perder-se no ar.

 

Na costa leste da Argólida, a nordeste do Peloponeso, repousa Epidaurus. Ah! Enterrar ali meu coração, naquele lugar que nunca vi, mas que amo como um agricultor ama suas terras e seu lar. Num vale próximo, no século IV a.C., foi ali construído o templo de Asclepius, o deus da Medicina. Pelo salão, sustentado por colunatas, desfilam os doentes de toda a Grécia. Deitam-se em catres e, quando a noite desce, os sacerdotes acendem as lâmpadas bruxoleantes e caminham entre os enfermos ordenando que durmam. Foi-Lhes ensinado a   sonhar    com Deus, pois ele viria durante seu sono sob a forma de uma serpente e os curaria. Pela manhã, levantavam-se curados...

 

Ao longo dos corredores, eles estão quietos, deitados nos catres. Eis um que não pode dormir. Observe sua respiração ofegante e pesada, como se alguma coisa o oprimisse. Por fim cochila, para acordar minutos depois, cansado e descorçoado. Ainda é escuro, mas a manhã já começa a arroxear a infinita linha do horizonte. As lâmpadas bruxoleiam e lançam sombras imprecisas e serpentinas pelas colunas do templo, enquanto chilreios abafados parecem anunciar aves de rapina em rápidos volteios. Os olhos arregalados do homem cessaram de rolar; acabara de ver, entre as lâmpadas penduradas e a parede, o vulto ereto de uma serpente. Uma enorme e oscilante serpente amarela, de olhos cintilantes como topázios lapidados. Aproxima-se cada vez mais do doente que a contempla em êxtase. Sempre ereta, em suave e ondulatório movimento, majestática como uma divindade, a serpente curva a cabeça sobre ele. Sua língua e a lâmpada silvam e flamejam por igual. Exultante, a custo, o doente ergue-se trêmulo sobre um  braço e  com  a  outra  mão crispada ele alcança e toca a chama que cura.

 

No quadro de avisos do hospital onde eu trabalhava surgiu um dia em comunicado: “Yeshi Dhonden”, li, “fará uma visita às seis horas da manhã do dia 10 de junho”. A peculiaridade decorria do esclarecimento que se seguia: “Yeshi Dhonden é a encarnação física do Dalai  Lama”.

 

Não sou tão cético a ponto de ignorar um emissário dos deuses; tampouco, seria hostil à presença do espírito voltado para as coisas da eternidade. Assim, na manhã do dia aprazado juntei-me ao grupo dos casacos brancos à espera na pequena sala de conferências, adjacente à sala escolhida para a visita médica. Precisamente às seis horas, ei-lo materializado, rápido, dourado, descalço, dentro de uma túnica laranja e castanha. Tinha a cabeça toda raspada a navalha; e seus únicos pêlos visíveis eram duas espessas linhas negras sobre os olhos.

 

Ele nos fez uma solene reverência, enquanto seu jovem intérprete fazia a apresentação e nos dizia que Yeshi Dhonden examinaria um paciente escolhido pela direção, cujo diagnóstico era desconhecido, por nós e por ele. O exame seria feito em nossa sala de conferências; a seguir, daria seu parecer. Fomos informados que ele, nas últimas duas horas, se purificara pelo banho, pela abstinência e pelas orações. Eu, de minha parte, tinha-me alimentado bem, fizera uma ligeira ablução e não tivera nenhuma preocupação por minha alma. Furtivamente, observei a reação dos meus colegas e percebi que todos nós nos sentíamos maculados.

 

A paciente fora acordada logo cedo e informada que seria examinada por um médico estrangeiro. Foi também coletada sua primeira micção. Quando Yeshi Dhonden entrou no quarto, ela não deu por sua presença; continuou com aquele misto de calma, contemplação e resignação que a acompanhava há muito e que é característica das doenças crônicas. Julgava tratar-se de mais uma das intermináveis séries de exames a que era periodicamente submetida. Yeshi Dhonden ficou de pé ao lado da cama, enquanto nós outros permanecíamos à distância, observando. Por um longo tempo estudou a doente, sem fixar parte alguma do seu corpo, mas parecia interessar-se por um ponto determinado além daquele vulto deitado de costas. Também eu observava: nenhum sinal visível, nenhum óbvio sintoma, gesto ou olhar davam idéia da natureza de sua doença.

 

Por fim, Yeshi tomou suavemente as mãos da doente entre as suas e curvou-se sobre o leito, atento, como se fora um golfista prestes a dar uma tacada. Cerrou os olhos e tomou-lhe o pulso e logo encontrou aquilo que buscava. Por meia hora permaneceu alheio a tudo, qual um pássaro exótico, dourado, com as asas dobradas, mantendo o pulso da mulher entre os dedos, balouçando-o com a suavidade de quem embala uma criança.

 

Toda sua força parecia ter apenas aquele objetivo, cada vez mais semelhante a um ritual. Dos pés da cama onde eu me postara senti que ele e a paciente tinham-se isolado, que estavam separados do resto do mundo, pairando sem nenhuma possibilidade de serem atingidos.

 

Por um momento a doente recostou-se ao travesseiro; às vezes levantava a cabeça e fitava aquela estranha figura debruçada sobre ela. Depois, voltava à posição anterior.

 

Não me era dado ver aquelas mãos se corresponderem, pois era um gesto íntimo e exclusivo entre eles. As pontas dos dedos de Yeshi Dhonden recebiam as mensagens, os fluidos do corpo enfermo através do ritmo e das batidas de seu pulso. Senti certo ciúme — não dele, pela dádiva de beleza e beatitude que herdara dos deuses, — mas dela. Queria ser tocado assim para receber  também  a  emanação das ondas suaves e repousantes que lhe emprestavam tamanha beatitude. Desprezava-me por haver apalpado centenas de pulsos de maneira apenas mecânica, sem jamais receber ou transmitir qualquer fluido.

 

Por fim Yeshi endireitou-se, colocou gentilmente a mão da mulher sobre o leito e recuou um passo. O intérprete providenciou uma tigela de madeira e dois bastões, onde deitou uma porção de urina da doente e passou a agitá-la com os bastões, até que se formou uma espuma dourada. Ele aproximou a tigela das narinas e aspirou três vezes; depois pousou-a e voltou-se para sair. Tudo isso sem dizer uma única palavra. Quando já se aproximava da porta, a mulher soergueu a cabeça, dirigiu-se a ele com voz suave, porém incisiva:

 

— Obrigada, doutor — e segurou com a outra mão o pulso que ele havia segurado, como se quisesse reter qualquer coisa. Yeshi voltou-se por um momento, fitou-a e, em seguida, afastou-se de vez pelo corredor. A visita terminara.

 

Estávamos de novo sentados na sala de conferências. Pela primeira vez ele passou a falar num suave dialeto tibetano que eu jamais ouvira e que o jovem intérprete traduzia. As duas vozes sobrepunham-se numa espécie de caos bilíngüe. Falavam de ventos circulando sobre o corpo da mulher, de um turbilhão que se abatia contra a barreira do seu corpo interior. Aquele vórtice estava em seu sangue, dizia Yeshi. Eram os últimos estertores de um coração imperfeito. “Entre as camadas do seu coração” — acrescentou — “antes, muito antes do seu nascimento, um vento veio e soprou, formando uma profunda comporta que nunca deverá ser aberta. Ali se represa toda a água do seu rio, e como a água das cascatas da montanha que rugem na primavera, abate-se sobre a terra e afoga sua respiração”. Dito isso, calou-se.

 

— Podemos agora ter seu diagnóstico, — perguntou um professor.

 

O  convidado, o homem que sabia, respondeu:

 

— Doença congênita do coração. Defeito septal intravascular, resultando em parada cardíaca.

 

Uma comporta que nunca deverá ser aberta, pensei comigo. Através dela se escoaria seu líquido vital. Portanto, eis o médico que ausculta de um modo no qual todos nós éramos completamente surdos, Porém ali estava mais que um médico, estava um sacerdote.

 

Eu sei.. . Eu sei. . . Do médico aos deuses há uma progressiva escala de conhecimentos e a cura, em si, é um ato sagrado. O homem-médico tropeça, erra, e se fere. Seu paciente um dia morrerá, e ele também morrerá.

 

Depois daquela experiência, quando faço minhas visitas, ouço a voz de Yeshi, que logo se esvai e deixa apenas uma suave e murmurante música. O júbilo me domina e, então, sinto-­me em estado de graça, tocado por qualquer coisa divina.

 

Richard Selzer

12/02/1999

 

Extraído do livro: Lições Mortais /Editora Difel /1978