A exata localização da alma
Alguém me perguntou por que escreveria um cirurgião, quando as estantes já estão cheias, vergando-se ao peso dos livros. Mais um simples advérbio arrisca quebrar a resistência da prateleira.
O cirurgião, cujos dedos tem mais familiaridade com quentes entranhas do que com a batida das teclas da máquina, deve abster-se de escrever. O cirurgião, que ao sentir o suave contato da película dos intestinos nas mãos, fica menos alarmado que uma família de cobras, saindo do seu conforto por tão indolente roçar. O cirurgião que manuseia um coração com o cuidado de quem segura um pássaro cativo.
Por que escreveria ele? Por vaidade? Há glória suficiente num bisturi. Por dinheiro? Pode-se enriquecer de outras maneiras. Não. O que o impele é a pesquisa do ritual da cirurgia, ao mesmo tempo, criminosa, dolorosa, saudável e plena de amor. É algo diabólico e duro para ser transmitido e mesmo para ser encontrado. Talvez se alguém cortasse um coração, um lóbulo do fígado, uma minúscula partícula do cérebro e as fixasse no papel, teria mais eloqüência que todas as páginas escritas no papel, teria mais eloqüência que todas as páginas escritas por Balzac. Essa obra não necessitaria do estilo literário, nem mesmo de erudição ou de história, mas a relataria com toda a fragilidade, força, desespero, de um fragmento de osso? Nada disso. Temo que a tarefa desnude a verdade que se esconde no âmago do corpo. Nem todo realismo de Rabelais ,Chekhov, o mesmo de Willian Carlos Willians conseguiriam trazer à luz essa obra, embora eu reconheça os heróicos esforços que eles empreenderam. No fundo, julgo que apenas a carne constitui o elemento fundamental. O resto nos serve de distração quando não sentimos fome, frio, dor ou enlevo. No recesso do corpo procuro a pedra filosofal. Sei que está lá, escondida no mais profundo e úmido beco sem saída, à espera de ser descoberta e que, para tal, eu deveria escudar-me com o fogo. Isto iluminaria o mundo, mas a tarefa não se cumpriria sem dor. Quem deixaria de sofrer ante tão extrema miséria? Emerson escreveu que o poeta é o único e verdadeiro doutor. Concordo plenamente, pois só o poeta possui o dom das palavras, que nos é vedado. A nós, cabe apenas olhar, registrar, diagnosticar e profetizar.
Certa vez, tive de amputar a perna de uma moça diabética. Como estava cega, não podia ver a úlcera enorme, negra, intumescida que lhe devorava o pé e o tornozelo e lhe ameaçava todo o corpo. Seu pé lembrava o delta do Mississipi, transbordando de poluição, a desdobrar-se em canais por entre os dedos feridos, transformando tudo em uma ruína pútrida.
A moça não podia ver sua ferida, mas podia senti-la intensamente, pois não há dor igual à que domina os membros onde já não mais corre o sangue, e que começam a apodrecer, nem existe bálsamo capaz de aplacá-la.
Durante mais de um ano procurei recompor aquela carne; removi as partes putrefatas, limpei, mediquei três vezes por semana. Tateando nas trevas, a moça sentada na mesa de curativos, mantinha pendurada a perna enferma, segurando-a com cuidado pela coxa, como se fora uma bomba que ao explodir arremessasse seus dedos pela sala. Incansavelmente, eu retalhava e removia pequenos fragmentos daquele couro azul e frágil em que seus tecidos se haviam transformado.
Por fim, desistimos; ela e eu. Não podíamos correr mais depressa que a gangrena. Era preciso operar rapidamente, logo, para que ela pudesse viver - e eu também. Foi para nos curar que tomei do bisturi e da serra e amputei-lhe a perna.
Eu próprio senti alívio ao ouvir o baque daquela ruína a cair sobre a mesa e ao ver o vazio que surgiu em seu corpo.
Eis-me no momento da operação, tenso, enquanto o anestesista instila o narcótico naquele corpo familiar, que aos poucos se relaxava.
Removo o lençol e, sobre a rótula da perna condenada, ela havia desenhado, às cegas um rosto. Apenas um círculo, com duas orelhas, duas órbitas, o nariz e uma boca sorridente, da qual saía a inscrição "SORRIA, DOUTOR". O som da serra chegou-me aos ouvidos e, a seguir, o seu silêncio me fez saber que tudo se consumara.
Naquele
instante, aprendi que o ser humano não é feio; é Belo por si mesmo, nada o
iguala. Afinal, todos nós caminhamos para morte, nem mais depressa, nem mais
devagar que os demais. Tornei-me mais receptivo ao advento do amor, pois é o
amor que nasce numa sala de operações. todos os dias eu o espero . talvez surja
hoje e paire no ar para que eu possa colher esse amor que medra e floresce no
mais estéril dos desertos.
Na
literatura corrente, o médico é retratado de modo irreverente, sua imagem real
ainda não foi descrita com veracidade. Shaw retrata-o com mordacidade; Molière
ridiculariza sua ignorância e falsa pompa, mesmo porque a imagem do médico
presta-se a caricaturas.
Creio, no entanto, que seu grande retratista ainda não surgiu e que tal incumbência poderia caber a um próprio médico, o qual, através de seu amor e de suas técnicas específicas, reconheça desde logo que encarna o papel de Narciso a enviar-se beijos através do espelho. Mas de um Narciso que superou as próprias dúvidas e afinal ostenta um estado de exata auto - admiração. Talvez venha a ser um descrente que, após uma vida inteira de gestos nobres e poderosas façanhas, compreenda que nada fez, além de imiscuir-se na vida dos outros e que, de um modo geral, fez mais mal que bem. Contudo, deve permanecer firme na crença de que nada há para temer e que a morte não ceifará aqueles que se encontram sob sua autoridade. Quando seus pacientes já tiverem partido, poderá então fechar-se em seu consultório e tremer de medo.
Unamuno relata a história de cura de uma aldeia espanhola, amado pelos paroquianos pela piedade e unção com que celebrava as missas dominicais. Tinham-no como um santo e, por antecipação, chamavam-no de São Manuel. Ele os ajudava nos rudes labores, atendia-os, confortava-os, confessava-os, e perdoava-lhes os pecados. Além disso, pregava-lhes a santa palavra de Deus nos sermões de domingo e transportava-os ao paraíso com seus cânticos. No entanto,Don Manoel não era tão santo assim e muito menos um mártir.
Tempos atrás sua própria fé o abandonara. Embora ateu, continuava a ser um bom homem, apesar de viver em permanente hipocrisia, fingindo uma fé que já não sentia. Ao erguer o cálice consagrado, suas mãos tremem e um suor frio cobre-lhe a fronte. Mas sabe que deve prosseguir pelo bem de seus fiéis.
Uma vez mais... e outra, e outra. Afinal, todo aquele sacrifício de uma vida não seria uma forma de oração?
Deveria o médico - escritor tratar homens e mulheres com igual respeito, pelo fato de conhecer o diagrama, a geografia interior de cada um? Reverencio o sólido peso do homem, tanto quanto adoro a cálida meiguice da mulher - daquela em cujas entranhas encontra-se o repositório da existência. Se eu o conseguisse, essa isenção de ânimo alcançaria a glória. A mulher é a física, é a química, é a matéria. Seu corpo nos conta a fragilidade masculina.
O homem não tem sua formação celular, sua enzimática sabedoria, pois é albuminóide, protéico.
A mulher é a gema fértil. Ambos crescem através da exuberância sanguínea. Eu empregaria os defeitos e deformidades de cada um para atender o meu secreto objetivo de escrever, pois sei que o estado de graça é alcançado pelo medo, os erros e os desenganos. Pesquisaria a alma através da estrutura do corpo. Sim, é a exata localização da alma que procuro. Sinto-lhe o misterioso odor, às vezes de repente num corpo enfermo. Se me fosse dado relatar isso com clareza! Não haverá uma equação matemática que estabeleça: tanto de dor de pus é igual a tanto de verdade? Será ela esquiva como um pássaro noturno, do qual se ouve o pio incessante a entrar pela janela, mas cujo ninho se oculta nas touceiras? Ao que sei, apenas os poetas podem lobrigar essa verdade, com os olhos que Deus lhes deu.
Certa
vez, julguei que também possuísse tal capacidade. Eram 10 horas da noite na
última sala do longo corredor de um ambulatório. Meu último paciente da jornada,
naquele local propício a visões de espectros, era um moço recém-chegado da
Guatemala, onde trabalhara em escavações de ruínas Maias. Trazia o braço
enfaixado e quando removia o curativo deparei com um buraco irregular, do
tamanho de uma moeda. Os tecidos à volta da lesão apresentavam-se
tumefacto e de quando em vez rolava por seu braço uma gota pardacenta.
Tratava-se, sem dúvida, de um abscesso mal drenado; urgia alargar a lesão para
liberar o pus que se acumulava internamente. Enfermeira, passa-me o bisturi e um
pouco de... O que aconteceu a seguir, seria suficiente para fazer o próprio
Francis Drake vomitar em seu camarote. Nenhum explorador se estarreceu tanto
frente a tão espantosa circunstância. Daquela cratera que eu acabava de alargar
emergia uma cabeça fina e cinzenta, provida de um par de antenas negras em forma
de pinça. A cabeça ligava-se a um pescoço longo e flexível, que se arqueava,
encolhia-se, voltava a avançar com audácia, as terríveis antenas abrindo-se e
fechando-se. Abscesso? Pus? Nunca! Isto é o covil da besta, cujos intuitos
malignos eu não podia adivinhar. Talvez um Demônio Maia, pensei, o qual, num
repente, poderia voar pela sala, com horrendas asas iridescentes, esgravatando,
mordiscando, injetando, quem sabe, uma desconhecida peçonha. E mesmo agora, não
me foge da memória aquela situação surpreendente, em que meu paciente se
transformava de escavador em escavado.
Com a
deliberação e todo o ritual do alto sacerdócio cirúrgico passei-lhe um
torniquete no braço, enquanto o coração me martelava as costelas.
A batalha tem início; a engrenagem do torniquete entra em ação e interrompe o ar na área. O demônio retrai-se ante meu sorriso de triunfo; aprofunda-se, acovarda-se e põe-se à espera. Os minutos se escoam como se fossem horas...
Um ligeiro tremor, e eis que de novo surge a coisa, avança e se mostra. Vigilante, ali está o cirurgião na posse de seus instrumentos. Dentro de instantes chocar-se-ão metal e carne, unidos, e não haverá limite entre o movimento e a extirpação. Agora! Agora é apertar, puxar e, afinal, conseguir!
Pinçada, em espasmos que meus dedos percebem, miro a estranha criatura. É minha! Meus ouvidos parecem captar o urro de um dragão fantasmagórico. Apodera-se de mim tão intenso ódio, que Iago, a meu lado, seria uma criança de colo. Sentia a embriaguez do vencedor contra o vencido, do algoz contra sua vítima. Senti o ódio do medo. Entre as mandíbulas de minha pinça estão aprisionados todos os demônios do mundo e, com um simples manejar de dedos, poderei matá-los e abrir caminho para mil anos de perfeita paz. Eis o Cirurgião como Salvador! Apertado com inflexível firmeza, o demônio luta, se retorce. Em vão. Aqui está, na ponta da pinça, minha obra literária: um imundo corpo cinzento com o formato de uma noz inglesa, as negras patas em espasmos. Num instante, é jogado num frasco com anti-sépticos, logo arrolhado. Enlouquecido, ele agita o líquido em movimentos frenéticos de um náufrago, até que se afunda molemente.
- Você vai sarar - declarei com segurança a meu paciente. - Aliás, todos nós vamos ficar bem daqui por diante...
No dia seguinte, levei o frasco ao laboratório da faculdade.
- Trata-se de uma larva de Gastrófila, - disse-me o patologista. - A mosca pica o animal e desova sob sua pele. O ovo torna-se larva e esta, ao ultimar seu ciclo, procura sair pelo orifício que praticou e cair ao solo. Após novo ciclo, transforma-se em nova mosca. Por casualidade, o homem foi o atingido e poderia morrer se não recebesse socorro a tempo.
Os epítetos impostor, vigarista, servente do diabo me vieram aos lábios. Mas a ele juntou-se outro cientista, em plena concordância.
Indignado, eu olhava de uma eminência para a outra, mas sabia que minha glória se pulverizara ao vento da simples realidade. Minha orgulhosa tentativa de salvar o mundo falhara lamentavelmente.
Não. O cirurgião não é o eleito de Deus. É apenas uma vítima da própria vaidade, quando identifica com a Poesia sua tarefa de estancar o sangue, aliviar os estertores, baixar a febre.
Assim, quando me indagam os motivos que levam o cirurgião a escrever, respondo que eu escrevo porque aspiro ser doutor.
Richard Selzer
texto colocado no Shinbun em: 21/02/1994