O
cirurgião como sacerdote
No
saguão de uma grande escola de medicina, existe um quadro que representa
Vesalius, o anatomista, seco, ascético e ereto frente à mesa de dissecação onde
jaz o corpo de um homem nu. A carnação de ambos é enluarada, estranha como se
uma chuva de vírus os envolvesse. O cadáver, digno e reservado, está distanciado
pela morte, enquanto Vesalius empunha o escalpo e olha de revés para um
crucifixo na parede. Há em seu rosto uma expressão de culpa, melancolia e medo.
Ele sabe que há algo errado, de proibido, no que irá fazer, mas seu fanatismo o
impele. É guiado por um desejo obscuro; quer ver, sentir, descobrir. Move-o a
paixão, não o romance. Eu compreendo sua expressão, Vesalius. Mesmo agora, após
tantas viagens pelo interior do ser humano, apossa-se de mim o mesmo medo
irracional ao olhar para o interior de um corpo, a mesma sensação do pecado pelo
qual se pagará um dia.
Sim,
a visão dos nossos órgãos internos nos foi proibida, não nos foi dado ver nosso
baço, coração, ou fígado. Oculta nos meandros do corpo está a cabeça de Medusa,
que nos pode cegar ao mais rápido olhar. Sei os perigos que enfrento e as
rígidas leis que desrespeitarei à menor inadvertência.
Em
meio a uma operação realizada com anestesia raquidiana observo a fisionomia do
meu paciente e dirijo-lhe rápidas palavras de ânimo. Olho-o por cima do biombo
que lhe oculta o abdome, no qual eu me concentro. O paciente não está adormecido
e seu olhar, voltado para o alto, expressa uma terrível concentração e sua face
espelha as contradições de quem viola um tabu. Acompanho seu olhar e também eu
vejo suas vísceras refletidas na luminária suspensa sobre a mesa de operações.
Lá estavam seu fígado negro e túrgido, suas vísceras palpitantes, o sangue a
escoar-se. Era tudo isso que seu olhar detalhava com fascinado horror.
Apoderara-se dele um sentimento ambivalente de medo e de curiosidade.
Também eu fui presa de sensação idêntica e rapidamente curvei-me sobre

Hesito em convidar o
leitor para penetrar comigo no interior do corpo humano, o que talvez fosse um
desafio, um sacrilégio. No entanto, ali não só o terror domina, mas há também
tranqüilidade e beleza. Como o rouxinol que se alegra com o próprio canto, ao
mesmo tempo em que deslumbra os que o escutam - compartilhe comigo desse roteiro
fascinante. Portanto, farei de meus dedos palavras, do meu bisturi, sentenças e,
do corpo de meu paciente, a história.
Existem cirurgiões que se adentram pelo corpo humano com amor, a exemplo daquele
que após longo exílio retorna ao berço natal por escuros e esquecidos caminhos.
Fique a meu lado, se assim o desejar, e percorra comigo a trilha que
Jamais existiu local
tão tranqüilo. Tão grande silêncio dá-nos a sensação de surdez. Mas por que esse
silêncio, se o sangue continua a se despejar em cataratas, se permanecem a força
dinâmica do cérebro e a incessante intercomunicação celular? Terá algum alto
sacerdote ordenado esse silêncio? Não o vazio silêncio interestelar, mas o
silêncio das ruínas ou do arco-íris, pleno de expectativa e de santo temor.
Como o leitor terá ensejo de aprender, a Cirurgia é uma espécie de missa, com o
sacrifício do corpo e do sangue humanos e na qual a doença é o pecado que o
cirurgião exorciza.
Toque a grande
artéria. Sinta-lhe o poder confinado, como o de um animal prisioneiro; sinta o
poderoso pulsar do sangue. Por um instante, detenha-se junto a este osso: será a
única lembrança que você deixará na Terra. Nos mudos tecidos, aguarde, ao pé do
mastro da bandeira a proclamação que farei. Encoste o ouvido a este côncavo,
como o fazia contra um caramujo para escutar o marulhar das ondas.
Agora, concentre-se e busque ouvir o
silêncio do passado. Deslize sem ruído pelos canais e dutos, como se fosse um
indígena em sua canoa. Num ponto próximo do branco feixe
Mas é perigoso que
você escute a maquinaria que fabrica o tutano; talvez enlouquecesse com o
insuportável zumbido de milhares de abelhas de cobre. Afinal, também é
assustador pousar o ouvido ao travesseiro e, no silêncio da noite, ouvir as
batidas do próprio coração. Tudo aquilo que se move deve repousar; não há ritmo
incessante; um dia, tudo pára.. . Então, chega o fim. Convém ao homem filosofar
sobre a inevitabilidade da morte, mas as três da madrugada tal preocupação é
apenas uma inútil tortura. Não passa de uma fantasia constituída pelas terríveis
imagens que forma a fumaça ao evolar-se dos fornos crematórios. Eis o momento em
que invejamos a longevidade do carvalho e seu tardo crescimento, julgo eu. . .
Devagar, coração!
Continue em seu incessante pulsar.
Aquilo que para um
homem não passa de coincidência, para outro é puro milagre. Presenciei ou um ou
outro durante a primavera passada. Enquanto a natureza despertava do seu sonho
hibernal, Joe Riker permanecia imutável.
— Nada de operação!!!
—
Repetia-me
ele — não
quero ser operado.
Joe trabalha numa lanchonete onde, vez por outra, me detenho para tomar um café. É meu cliente há cerca de seis meses e todas as quintas-feiras, às quatro horas, ei-lo presente ao meu consultório, carregando, literalmente, suas aflições debaixo do chapéu. Senta-se sobre a mesa de exames, tira o chapéu côco, inclina-se para a frente e me exibe sua chaga craniana, enorme e profunda como uma boca. Camuflada pelo cabelo que lhe resta, ostenta-se aquela excrescência rósea sobre a calva. O câncer mordera através de Joe; roera-lhe o crânio e atingira a dura-máter, a pia-máter e a aracnóide, até desnudar-lhe a massa encefálica, cuja coloração rosa-cinza estava visível. A cada pulsação, o fluido cerebral tremia. Não raro, uma gota de humor viscoso ultrapassava os bordos da cratera e escorria-lhe pela calva.
Então Joe limpava-a,
com o dedo, como se fora uma lágrima furtiva.
Eu sentia por Joe uma
incontida admiração. Aquele tumor que lhe desnudava o cérebro emprestava-lhe uma
grande dignidade, concedia-lhe uma graça que não alcançara em toda sua vida
anterior quando gozava saúde.
— Joe, vamos nos
livrar disso; cortar a parte ruim e tapar o lugar com uma chapa de metal. Você
ficará curado.
— Nada de operação —
retrucava ele.
Tentei de novo.
— O que você quer
dizer com nada de operação? Vai acabar com meningite, qualquer dia desses, e
simplesmente morrer. Essa coisa ainda vai lhe atingir o cérebro.
A meu ver, o
carcinoma estava devorando os sonhos e as recordações de Joe. Como gostaria de
conhecê-los, antes que se acabassem! O cirurgião conhece em minúcias todas as
partes do cérebro, mas não conhece os sonhos e recordações de seu paciente. Por
um momento, fui tentado a tomar sua cabeça nas mãos, levá-la aos ouvidos e
ouvir. Mas isto não se coadunava com meu papel. Meu dever limitava-se à sua
carne.
— Nada de operação — teimava ele.
— Você me dá dor de cabeça, retruquei-lhe um dia.
— E rimos os dois,
não por que o jogo de palavras tivesse graça, mas por havermos estabelecido
entre nós uma espécie de vínculo secreto.
— À mesma hora na
próxima semana? — ele indagou.
Limpei a ferida e
fiz-lhe um curativo. Com a máxima dignidade, Joe cobriu-se com seu chapeu-coco.
— Sim, à mesma hora,
— respondi.
E na semana seguinte
lá estava ele conscienciosamente no horário exato.
Até que, numa determinada semana,
Joe não apareceu, bem como nas seguintes, por todo um mês. Resolvi procurá-lo na
lanchonete, onde o encontrei na lida, entre a grelha e o balcão, sempre com seu
indefectível chapéu. Aproximou-se e, em silêncio, me serviu uma xícara de café.
— Quero ver o seu
buraco, disse-Lhe eu.
— Qual deles? —
indagou num gracejo.
— Não importa qual,
mas preciso vê-lo. Estou muito ocupado e não posso perder tempo.
— Aqui não —
respondeu-me, olhando em volta, amuado, como se acabasse de receber uma proposta
indecente.
— Está bem; então no
consultório às quatro.
— Certo. — E
afastou-se para atender um freguês.
Joe está atrasado;
deve ter acontecido alguma coisa, penso com ansiedade mesclada de irritação. Por
fim ele chegou.
— Tire o chapéu.
Pelo tom, ele
percebeu que eu não estava de bom humor. Obedeceu a medo, levantando o chapéu
com ambas as mãos, como sempre fazia. Então, eu vi. . . que a ferida
simplesmente cicatrizara. Onde antes havia uma enorme reentrância úmida, surgia
agora uma camada de pele fina e brilhante.
— Que aconteceu? —
indaguei cheio de pasmo.
— O doutor quer dizer
isto? — retrucou Joe. — Ah, bem, minha cunhada me trouxe da França uma garrafa
da água milagrosa de Lourdes. Tenho banhado a ferida todos os dias com ela.
— Água benta?
— Sim, água benta —
respondeu ele.
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Richard Selzer
12/02/1999
Extraído do livro: Lições Mortais /Editora Difel /1978